Katherine Bouton
Katherine Bouton

Editor americano relembra trabalho sobre contos da canadense

Daniel Menaker, diz que Alice Munro é a melhor escritora que ele já publicou

Lucia Guimarães / NOVA YORK, O Estado de S. Paulo

10 de outubro de 2013 | 19h20

O que pensar de um editor que sistematicamente rejeita contos inéditos de uma futura ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura? Estamos falando de William Shawn, o lendário editor da revista New Yorker entre 1952 e 1987. E o editor que é o defensor de primeira hora da prosa da dita escritora na mesma redação? Estamos falando de Daniel Menaker. Durante dez anos, a partir da década de 80, quando assumiu a função de editar ficção, Menaker trabalhou com Alice Munro em seus manuscritos submetidos à revista.

O reconhecimento da autora pelo maior prêmio literário, ele argumenta, chega com atraso. Quando atendeu o Caderno 2 em casa, o editor deu sinais da alegria adiada, característica dos que detectaram num artista o que o resto do mundo acaba por reconhecer. Depois de 26 anos, Menaker saiu da New Yorker para a editora Random House, em 1995, onde foi editor-chefe e de onde saiu em 2007. Ele lança em novembro seu primeiro livro de memórias, My Mistake (Meu Erro), parte autobiografia, parte memória da vida literária, em que reproduz cartas trocadas com Alice Munro - "a melhor escritora que editei. Para o meu gosto, a melhor escritora, ponto.", diz.

O Prêmio Nobel considera o conjunto da obra, especialmente trabalhos em circulação há décadas. Por que chegou o momento de Alice Munro?

Durante anos, disseram que Munro não seria reconhecida por causa do mundo confinado de seus contos, um argumento absurdo. O que dizer do mundo de Jane Austen? Ou das cenas domésticas das pinturas de Vermeer? O obstáculo, na minha opinião, era o fato de que ela só escreve contos. É interessante que o prêmio saia agora, quando estamos vendo um pequeno renascimento do conto na literatura, em autores como Elizabeth Strout, que ganhou o Pulitzer por Olive Kitteridge. E não é coincidência. O espectro da atenção contemporânea foi muito reduzido com a mídia digital. Um longo romance exige uma imersão que a distração contemporânea pode não comportar. Mas isto não tira nada da importância extraordinária da obra de Munro.

Entre os autores vivos, Munro é comparada ao irlandês William Trevor.

Sim, mas a diferença aqui é que consigo identificar a voz de Trevor, que me parece mais circunscrita à sua linguagem lacônica, bastante irlandesa. Munro parece ter um estilo invisível, é algo mágico, você vai se deslocando frase por frase. Ela tem um tom confidencial e se dirige ao leitor de maneira primal, não existe a autoconsciência literária. Trevor é fabuloso mas prefiro seus romances aos contos. Mas veja, estamos num Olimpo aqui, falamos de deuses. Comparo Trevor a Munro porque ambos percorrem o mesmo território de anarquia moral.

Por que os contos de Alice Munro foram inicialmente recusados pela New Yorker?

Eles eram duros, um pouco brutos para a New Yorker da década de 70. Munro tratava de violência e sexualidade de uma forma explícita que Wallace Shawn não conseguia digerir. Até que Royal Beatings (depois incluído na coletânea Who Do You Think You Are?) marcou sua estréia na New Yorker, em 1977. Shawn, embora perturbado, capitulou. Depois de reclamar da prosa gráfica, ele anotou, em sua opinião, que o conto era bom demais, não tinha escolha senão publicar.

Munro diz que seu último livro, Dear Life, contém o que mais ela pode revelar sobre si mesma, embora os fatos não sejam autobiográficos.

Devo dizer que não considero nenhuma ficção autobiográfica, ainda que um autor se inspire em fatos que viveu. A gratificação do leitor com a ficção é estética. Não me interessa se algo se passou na vida real. Dito isso, vou me lembrar de uma conversa que tive com Alice. No conto Wenlock Edge, incluído em Felicidade Demais, uma jovem vai jantar na casa de um homem mais velho e lhe pedem que fique nua antes de se dirigir à sala de jantar. A certa altura, ele pede à jovem sentada que, por favor, "não cruze as pernas". Comentei, brincando: "É o tipo de história que deve acabar com o mito de que a sua ficção é autobiográfica." Ela riu. Surpreso, insisti, "Alice?" E ela soltou uma gargalhada gostosa.

O senhor acredita que, depois de Dear Life, ela deixa mesmo de escrever? Já tinha anunciado o mesmo em 2006 e voltou a publicar.

Vou ser franco, acho que isto não tem a menor importância. A obra está aí, majestosa. Nos últimos dez anos li contos seus que não estavam à altura de trabalhos anteriores. E também li contos, do mesmo período, estupendos, como o melhor que ela escreveu. Certa vez, ela me disse que comparava o trabalho do escritor ao do malabarista. Ele deve, de alguma forma, entreter o leitor e ao mesmo tempo transmitir algo que dure e seja relevante.

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