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Edifício em forma de nuvem ocupará área de 11 mil m² no pulmão parisiense

A sede da Fondation Louis Vuitton será um dos projetos mais complexos do arquiteto Frank O. Gehry

Jotabê Medeiros - O Estado de S. Paulo,

16 de julho de 2012 | 13h53

No pulmão de Paris, o Bois de Boulogne, parque duas vezes maior que o Central Park (Nova York) e três vezes e meia maior que o Hyde Park (Londres), acontece o imponderável: o arquiteto canadense-americano Frank O. Gehry, aos 83 anos, erige mais uma obra arquitetônica monumental, a sede da Fondation Louis Vuitton, um edifício de 11 mil m² que o autor (que ganhou o prêmio Pritzker em 1989) considera um dos mais complexos de sua vida.

O prédio, segundo a fundação, será inaugurado na primavera de 2014. Gehry diz que o concebeu como se fosse uma nuvem, uma celebração do mutável. Para construir um edifício em harmonia com o Bois de Boulogne, ele o projetou todo em vidro, o que possibilitará uma economia de 25% de energia. A estrutura lembra a dos modelos navais feitos de ripas de bambu.

"A imagem do mundo que evolui sem cessar, essa imagem mudará em função das estações, das horas e das luzes", disse o arquiteto em entrevista exclusiva ao diário francês Le Figaro, em junho. O edifício foi apelidado de "O Iceberg". Possuirá 11 galerias de exposições em sete "capelas", algumas delas com 17 metros de altura.

"A ideia da nuvem me veio porque o vidro tem uma legitimidade histórica nesse jardim (o bois de Boulogne)", disse Gehry. "Eu quis criar uma impressão de efêmero. Meu primeiro desenho exprime essa linha fluida em movimento. Essa arquitetura deve ser como um sonho. Mas ela deve viver. Montar escadas através dessa nuvem transparente para apreciar a construção se abrir para o jardim e como a natureza entra em seu interior."

A nova monumentalidade de Frank Gehry já enfrenta uma oposição quase tão ferrenha quanto a que ele enfrentou quando projetou o museu Guggenheim de Bilbao, aberto em 1997. "O sucesso não guia minha vida", afirmou. "Eu já tinha a experiência de Bilbao. Todos estavam contra mim."

Ele diz que prefere dialogar com os artistas do que com seus colegas. Quando projetou seu primeiro edifício em Los Angeles, nos anos 1960, lembra, foi alvo de numerosas críticas de arquitetos. "É por isso que eu me voltei para os artistas. Jasper Johns, Rosenquist, Chamberlain. Eles me abriram seus ateliês. Sou mais afeito às suas maneiras de pensar. Têm uma visão menos radical, de acordo com minha concepção de arquitetura, livre, aberta sobre o mundo"

"Eu tenho muitas afinidades com Alvar Aalto. Amo suas formas livres", afirmou o arquiteto, que quase projetou um Guggenheim no Rio de Janeiro – o plano foi abandonado em 2001 por falta de investidores. Ele chegou ainda a ir ao Recife e Curitiba em busca de um local para um segundo museu. Gehry está em vias de ter sua biografia publicada. O autor é o ensaísta Paul Goldberger, ganhador de um Pulitzer, que esteve no Brasil recentemente lançando o livro Relevância da Arquitetura (Why Architecture Matters). Segundo Goldberger, a profusão de museus como obras transformadoras da paisagem em todo o mundo (coisa na qual Gehry é um especialista) é um sintoma de época, assim como a rarefação de grandes igrejas e templos – coisa que era muito comum até o século 19.

"Acho que a religião tem um diferente papel hoje na sociedade. Não é mais tão dominante. Então, não construímos igrejas da mesma forma que já fizemos. Há algumas, há ainda grandes exemplos de arquitetura moderna com esse propósito. Eu acho que, de diversas formas, o museu de arte se tornou a nova catedral. O Guggenheim se tornaria uma catedral no Rio de Janeiro, se tivesse sido feito", afirmou.

Frank O. Gehry é canadense nascido em Toronto e naturalizado americano. Sua família se mudou para os Estados Unidos quando ele tinha 17 anos. Formado pela University of Southern California, estudou planejamento urbano na Harvard University Graduate School of Design. Em 1961, foi trabalhar num escritório de arquitetura em Paris, onde ficou por um ano. "Amo essa cidade, é minha capital preferida." Quando voltou para Los Angeles, abriu o próprio escritório e virou establishment na arquitetura.

Ele conta que foi o magnata Bernard Arnault, o dono da Louis Vuitton, que o procurou após visitar o Guggenheim Bilbao. "Ele me levou para visitar o local onde pretendia erguer sua fundação. Eu submergi em emoção. No ato, eu imaginei Marcel Proust perambulando pelo século 19 por esse jardim de aclimatação", lembrou.

 
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