Edição luxuosa revê anos de ouro da Disney

Em 1935, um jovem desenhista do Oregon bateu na porta dos Estúdios Disney, em Minneapolis, pedindo emprego. Deram-lhe um trabalho como assistente, uma espécie de estágio. Após 6 meses, ele apresentou uma idéia para um cartum do Pato Donald, e foi promovido ao departamento de histórias. Surgia ali, com uma singela história sobre uma cadeira de barbeiro no episódio Invenções Modernas, o maior gênio que já viveu nas entranhas da fábrica de quadrinhos: Carl Barks (1901-2000). Barks desenhou as maiores histórias que os personagens da Disney protagonizaram. Deu aos personagens Donald e Tio Patinhas um status de arte, subvertendo a natureza industrial daqueles produtos. Foi o inventor do cientista maluco, o Professor Pardal, que surgiu em maio de 1952. Essas aventuras, para quem aprecia o gênero, constituem um tesouro inestimável - um tesouro que está sendo reeditado em uma sofisticada caixa de coleção, O Melhor da Disney - As Obras Completas de Carl Barks. O primeiro exemplar chega às bancas na sexta, ao preço de R$ 14,95. Com a edição de lançamento virá, gratuitamente, uma caixa de colecionador para guardar os quatro primeiros volumes da coleção. Os demais lançamentos estão programados para o final de 2004, decorrer de 2005 e 2006, em tiragens limitadas. Barks é um culto de centenas de artistas, do cartum ao cinema. A célebre cena da pedra gigante que rola dentro de uma caverna perseguindo o aventureiro Indiana Jones, no filme Os Caçadores da Arca Perdida, foi inspirada numa aventura do Tio Patinhas feita por Barks. O cineasta George Lucas (Guerra nas Estrelas) o adorava. Filho de trabalhadores rurais do Oregon, Barks era humilde e tinha um senso de humor peculiar. Depois dos primeiros 6 anos trabalhando na Disney, pediu demissão porque não suportava o ar-condicionado da empresa, que acirrava suas crises de sinusite. Foi criar galinhas num rancho, mas depois voltou a desenhar. O professor Álvaro de Moya, autor de História da História em Quadrinhos conta uma história que ilustra bem o espírito meio anárquico de Barks. "Quando ele morreu, deixou especificado no testamento um pedido aos parentes. Era para que eles, no seu enterro, recomendassem a todos os que apareceram na cerimônia para rumarem depois a um determinado restaurante. Lá, os aguardava um grande banquete, pago pelo próprio Barks", diverte-se. A edição de As Obras Completas de Carl Barks, da Abril, é a mais bem cuidada que apareceu até agora sobre o gênio da Disney. Tem apontamentos sobre as histórias reeditadas e as especificações técnicas, como data de publicação e revistas onde foram publicadas (nos Estados Unidos e no Brasil). Está na primeira edição, por exemplo, a história Presentes para Todos (Search for the Cuspidoria), a versão "patológica" de Barks para o clássico Um Conto de Natal, de Charles Dickens. O Tio Patinhas (Scrooge McDuck) foi diretamente inspirado no personagem Ebenezer Scrooge, de Dickens, mas, em 1954, Barks resolveu emparelhar os dois personagens, o clássico e o pop.

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