Felipe Rau/ Estadão
Felipe Rau/ Estadão

Eddie Peake expõe pela primeira vez no País

Pintor inglês não sente afinidade com a paródia dos artistas pop

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2013 | 02h22

Aos 32 anos, o pintor e performer inglês Eddie Peake faz sua primeira exposição na América do Sul, escolhendo São Paulo para sua estreia, hoje, na galeria White Cube, onde exibe 19 pinturas inéditas da série Caustic Community (Masks and Mirrors), além de um vídeo realizado no Novo México, nos EUA, no início deste ano. Como sugere o título da série, as pinturas, em óleo e acrílica, colocam em confronto a máscara do espectador e sua identidade na superfície espelhada do aço polido - sobre a qual Peake aplica letras e tinta spray de cores berrantes. As letras formam frases que se assemelham a eróticos slogans, incitando o público experimentar inauditas formas de sexualidade.

Nova sensação da cena inglesa, Peake conseguiu eclipsar o onipresente Damien Hirst com suas provocações. No ano passado, ele ocupou duas respeitadas instituições de arte inglesas com performers nus, provocando (bons) comentários de acadêmicos de renome como o historiador de arte Roger Cook. Na primeira performance, Touch, realizada na Royal Academy of Arts, ele reuniu um pequeno time de jogadores nus para uma partida de futebol de 30 minutos, na qual os craques só se diferenciavam pelas cores das meias que usavam. Na segunda performance, em julho de 2012, dividida em duas partes e de título mais longo (Amidst a Sea of Flaming High Heels and Cooking Utensils), Peake ocupou a Tate Modern e a galeria Chinsenhale com mais atores nus, alguns com os corpos pintados de dourado - "figuras dionisíacas de um coro grego", segundo suas palavras.

Peake, filho de dois pintores, tem quatro irmãos. Apenas um não é artista. Tem uma irmã poeta e seu irmão gêmeo é cineasta. Formado num lar de eruditos, é natural que suas performances e pinturas sejam cheias de referências cultas. Assim, na performance no espaço The Tanks, inaugurado no ano passado pela Tate, os atores emulavam gestos de esculturas renascentistas (como o Davi de Michelangelo) e simulavam um jogo erótico para estimular o desejo voyeurístico do público. Roger Cook viu na performance da Tate e da Chisenhale uma "referência explícita ao bíblico Livro do Gênesis, que faz a cultura ocidental associar nudez e pecado".

Peake confirma. E vai além. O público, de fato, era confrontado com a natureza ambígua de seres inocentes, envergonhados de sua queda como Adão e Eva. E, para mostrar que eram corpos sagrados, o inglês pintou atores de sua performance na Tate com tinta dourada, simulacro do ouro consagrado pela tradição clássica da pintura (o metal, de natureza incorruptível, distingue nas telas antigas a singularidade dos santos). Peake tem uma ligação forte com a tradição, mas deve muito mais aos artistas da geração performática vanguardista dos anos 1970, como o norte-americano Paul McCarthy, que usou o corpo para questionar as relações de poder estabelecidas pelo sexo - numa performance radical, de 1976, McCarthy praticou sexo com uma Barbie. A exemplo desses pioneiros, o artista inglês confirma sua vocação para desafiar convenções e testar os limites da plateia. Diz que usa o corpo de forma pragmática - por "estar sempre disponível"-, mas refuta críticas de que se autopromove com o escândalo da nudez.

"Não diria que minhas performances são políticas, mas que elas lidam com a adoração hedonista dos corpos, presente na tradição da arte, embora não de forma paródica, como indicam alguns críticos." Sua busca, diz, é por uma correspondência analógica entre a linguagem do corpo e a comunicação verbal. Ele espera que essa expressão física possa superar as deficiências do verbo e derrotar o biopoder denunciado por Foucault, que busca controlar o corpo humano na sociedade contemporânea. O foco das performances de Peake é sempre a discrepância entre verbo e imagem. Nesse sentido, ele aponta as telas de sua primeira exposição brasileira como representações materiais de suas performances.

Brincando com a sexualidade ambígua e a categorização de gêneros, ele expande sua investigação sobre o corpo ao introduzir nos trabalhos uma nova persona, como observou a crítica inglesa. "Isso explica a superfície espelhada das telas, que reflete a imagem do espectador enquanto lê as mensagens." E elas são convites à transgressão. "Todos juntos, nus" e "Vamos nos masturbar juntos" são duas das frases inscritas nas pinturas policromáticas, que remetem à estética consagrada pela arte pop americana. Apesar disso, Peake não sente afinidade com Warhol e companhia. O narcisismo brincalhão que o faz tirar a roupa e participar de jogos homoeróticos é diferente da contracultura da Factory dos anos 1960, diz.

"Gosto mais dos italianos da arte povera e de Pasolini", revela, declarando que nunca se viu como um outsider em sua terra natal. "A Inglaterra de hoje é um país liberal, tolerante, e eu me sinto socialmente aceito", resume. "Não é como na Rússia, isso eu posso garantir." A despeito disso, a Inglaterra considerou a homossexualidade crime até 1967, levando à prisão cidadãos com essa orientação. Peake desconhecia o fato.

Ele sente que tem um débito com a geração de Damien Hirst e Tracey Emin. Não exatamente por causa de tubarões embalsamados ou camas desarrumadas - ainda com as marcas de sexo sobre os lençóis. "Ele praticamente se impuseram ao público." Peake, ao contrário de outros performers menos expostos à mídia, como Tino Seghal, que não permite a documentação de seu trabalho, tem tudo registrado para a posteridade. Faz sentido. Eddie Peake é um nome que certamente não será esquecido.

EDDIE PEAKE

Galeria White Cube.

Rua Agostinho Rodrigues Filho, 550,

tel. 4329-4474. 3ª a sáb., 11 h/ 19 h. Até 8/2.

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