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Ed Motta lança o álbum 'AOR'

Em entrevista, músico critica o vazio criativo do meio artístico nacional

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2013 | 02h13

Se fosse uma emissora de rádio, Ed Motta só tocaria Christopher Cross, Doobie Brothers, Carly Simon, Bonnie Tyler, Billy Joel, Neil Sedaka. Gente que nos anos 80 fez uma modalidade de canção com uma mão no soul e outra no jazz e que neste exato momento canta nas rádios Alpha FM e Antena 1. Ed explica que o mundo conhece isso por um nome que os brasileiros ignoram e que o mundo tem redescoberto com euforia, AOR. O mesmo nome de seu novo e bem-sucedido disco. Nesta entrevista ao Estado, o compositor que diz usar a voz como se fosse um saxofone, fala de seu álbum, do meio em que vive, dos comentários que fez recentemente em redes sociais sobre a classe musical e até das velhas rusgas com um certo tio chamado Tim Maia.

Você faz música para elite?

Esse requinte de música não veio das elites. A música mais requintada do mundo vem das periferias. Jazz, soul, samba, Cartola. Eu nunca penso em fazer algo elitizado, ninguém pensa. Se pudesse, todo mundo gostaria de apertar um botão e virar Michael Jackson (risos).

O que é o AOR?

Música pop. Alpha FM na veia. Pop total. Mas hiperpolido, benfeito, com uma harmonia pensada. As rádios adultas tocam isso o tempo todo, mas ninguém chama aqui por essa nomenclatura. O AOR é adorado pelos caras do rap. Michael McDonald foi sampleado por um grupo recentemente. E nada mais nada menos do que o disco novo do Daft Punk tem muita AOR.

Você se expressou recentemente com relação à nova geração de músicos do País...

Aconteceu algo na geração dos anos 90. É uma geração pragmática, ligeiramente direitosa, neoliberal. Existia uma certa ambição de ficar rico. A geração 90 queria comprar uma Land Rover branca, porque é sempre assim, cafoninha, namorar uma modelo e vender milhões de discos. Já essa geração de agora é engraçada. Não tem ambição, não tem técnica e não tem talento. Esse troço só atrapalha.

Atrapalha você?

Sim atrapalha. Aquele nheco nheco que toca no Sesc atrapalha quem faz música séria.

Em que sentido?

Atrapalha. Vão deixar de nos chamar para chamar essas pessoas. Vai ser menos trabalho, menos dinheiro e não vai ter gente competente pegando esse trabalho. Cara, o negócio da música é muito sério, sou um extremista. Isso é algo que me agride. A existência de certas coisas me agride. Saber que grandes músicos estão em casa sem poder pagar suas contas porque tem três idiotas com uma guitarrinha e uma cantora fingindo que é uma criança... Mas ok, eu botei a mão num vespeiro que foi criticar esse povo aí. Cheguei na hora errada no barzinho na Vila Madalena.

Você, ao contrário de grande parte dos artistas, não parece ter uma turma...

Aí é da minha personalidade, o leonino, ególatra. Tudo o que eu não quero é estar em uma turma e saber que ela escuta minhas coisas para aprender (risos).

Você tem que acreditar que você é bom?

Não é nem que eu acredito, é incontrolável. Estou aqui dando entrevista para o jornal mais importante do País. Não tinha que estar falando essas coisas, tinha que estar fazendo um discurso correto, aquilo que os grandes sempre fizeram. Sempre se fizeram de bobo, uma coisa soberana de eu entendo tudo, compreendo tudo.

Ainda procuram semelhanças entre seu tio Tim Maia e você?

Acho que todos que fazem música pop no Brasil têm influência dele. Foi importante, inovador, tenho muita ligação. Mas eu nunca fui ajudado pelo meu tio. Muito pelo contrário, a gente nem se dava muito bem...

Vocês brigavam?

Não, mas você imagina: o Tim Maia com a personalidade dele e eu com a minha. Quando eu era muito pequeno ele ficava impressionado. Com 5 anos ganhei um concurso de bateria. E quando começou a pintar o meu grupo Conexão Japeri, ele ficou enciumado e começou a falar mal de mim nos jornais, até que eu parei de falar com ele. Dizia que eu tinha muito que aprender. Quando ele ligava lá para casa, dizia (imitando a voz de Tim): "Americano, chama tua mãe aí porque antes de ela ser tua mãe ela é minha irmã, babaca!" (risos). E tinha o negócio do jazz, que ele detestava. O telefone tocava e ele mandava: "Por que esse negócio de jazz, merrmão? Merrrmão, tu vai morrer de fome com esse negócio!". E quando eu, pequeno, ia perguntar se ele tinha visto mesmo o Sly and Family Stone nos Estados Unidos, ele dizia: "Merrrmão, tu vai ser jornalista, sabe por quê? Por que tu é muito chato!".

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