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Ecos dos Oscars

Sam Mendes tinha mais razão para usar a tomada contínua do que teve outro diretor a usar o mesmo truque, Alfred Hitchcock, em Rope (Festim Diabólico, é isso?).

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 03h00

Parasita mereceu até o exagero dos seus múltiplos prêmios. Imerecido foi o relativo descaso com 1917, um filme superior ao coreano que só ganhou Oscars de melhor fotografia e melhor mixagem de som – escassos consolos, vamos combinar. A falsa tomada única que o diretor de 1917 Sam Mendes escolheu para contar sua história não é exibicionismo técnico vazio, como já ouvi dizerem. É mesmo difícil imaginar outra maneira de fazer um filme em que tudo é propulsão sem soltar uma ágil “steady camera” correndo na frente, atrás e lado a lado com os dois protagonistas através do inferno, como um terceiro corredor. 

Sam Mendes tinha mais razão para usar a tomada contínua do que teve outro diretor a usar o mesmo truque, Alfred Hitchcock, em Rope (Festim Diabólico, é isso?). Hitchcock estava limitado pela capacidade das câmeras no seu tempo, que só podiam filmar dez minutos até o diretor ser obrigado a recarregá-las e disfarçar um corte. Só fez o filme para enfrentar o desafio.

Os cortes de 1917 são mais difíceis de localizar do que os do Hitchcock. Sam Mendes não tinha outra maneira de nos envolver tão realisticamente na Grande Guerra do que com sua câmera participante. O que para Sam Mendes foi uma escolha inescapável da falsa tomada única da sua narrativa, para Hitchcock a tomada contínua de Rope foi apenas uma das tantas dificuldades que ele costumava se impor. 

Sua mania de sempre aparecer nos próprios filmes, mesmo rapidamente, exigiu muita criatividade de Hitchcock. No filme Um Barco e Nove Destinos que se passa todo dentro de um bote salva-vidas em que a presença dele seria improvável, alguém lê um jornal em que aparece o anúncio de um tratamento contra a gordura. Hitchcock é o “antes” no anúncio. Outro desafio entre os muitos que ele se propôs foi o de fazer o único filme de horror na história do cinema sem vilões e sem monstros, Os Pássaros, uma parábola apocalíptica nunca devidamente reconhecida.

Talvez Sam Mendes possa esperar um reconhecimento tardio.

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