Jonne Roriz/AE-20/2/2006
Jonne Roriz/AE-20/2/2006

Ecos do Katrina

CD reúne baladas que denunciam o descaso e lembram dor da população

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

03 de setembro de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

O furacão Irene acabou de varrer os Estados Unidos - felizmente com poucas vítimas. Mas nem sempre os furacões foram tão bonzinhos nos EUA. Em 2005, o Katrina arrasou New Orleans. A tragédia atingiu proporções gigantescas e o governo de George W. Bush demorou demais para tomar alguma atitude.

O que isso tem a ver com música contemporânea? Tudo, segundo o maestro e compositor norte-americano Ted Hearne. Ele compôs as Katrina Ballads, uma espécie de oratório moderno que denuncia o descaso das autoridades e expressa a dor da população. Ao todo, oito canções para voz solista e grupo de 11 músicos e quatro peças instrumentais. Hearne musicou exclusivamente textos primários, ou seja, produzidos no calor da hora do desastre, em 2005. Frases pinçadas de reportagens, artigos e falas no rádio e TV, incluindo manifestações dos políticos e de Bush. O CD, do selo americano New Music Collective, foi lançado há pouco no mercado internacional.

É uma música de forte conteúdo político, que mostra como o engajamento nos grandes acontecimentos políticos, econômicos e sociais no mundo pode ser um meio para a música contemporânea se aproximar do homem comum do século 21. Hearne é um ativista engajado nas grandes questões do planeta. Mas está longe de ser um idealista ingênuo. Toda música é política, diz em entrevista ao Estado: "É política no sentido de que é criada a partir de um determinado conjunto de circunstâncias, em determinado tempo e lugar. Essas condições jamais podem ser extirpadas da própria arte".

Hearne, que também é maestro do grupo Red Ligh New Music, toca a ONG Yes Is a World, fundada em 2002 com o objetivo de "promover a paz e a transformação social por meio da diversidade musical". A entidade começou realizando concertos com obras combinando texto e música com vocação pacifista ou de protesto. Com o tempo, o foco ampliou-se. "Graças a doação da Fundação Kaiser pesquisamos em 2006 o impacto da música na mudança da paisagem política da África do Sul. O resultado foi Body Soldiers, que compus com Mollie Stone, maestro e etnomusicólogo de Chicago, que mostra como os negros sul-africanos adaptaram sua tradição coral de forte cunho político para enfrentar a aids."

Hearne, nascido em Chicago há 29 anos, é bastante ligado ao movimento nova-iorquino Bang on a Can; estudou com David Lang e Julia Wolfe, dois dos compositores que fundaram com Michael Gordon o grupo de mesmo nome 25 anos atrás. Não pretende reviver posturas marxistas datadas, baseadas nas matrizes de Eisler-Brecht ou coisa que o valha. Sua concepção de música política é mais ampla. "Uso a palavra política com um significado amplo. Faço isso principalmente como reação à ideia de que a música clássica deve de algum modo transcender o tempo e o lugar onde foi ou é produzida. É uma expectativa tola em qualquer tipo de música. Nenhuma arte é "eterna". Só adquire significado através da ótica da nossa experiência. E até mesmo as grandes obras do passado, as mais amadas, têm um significado específico para nós em nosso próprio tempo."

Em suma, mesmo quando nega qualquer ativismo ou envolvimento político, a música assume uma postura que reflete uma atitude política, conclui Ted Hearne.

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