Ecos da maior plateia do Brasil

Um balanço da mostra pernambucana, que teve de enxugar custos, mas manteve o gigantismo e o frisson

Luiz Carlos Merten, RECIFE, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

No sábado, o criador do Cine PE, Alfredo Bertini, reuniu-se com a imprensa para avaliar o resultado da 14.ª edição do Festival do Recife. É um dos eventos de cinema que mais crescem no País, atraindo diretores que querem sentir o frisson de ver seu filme avaliado pela maior plateia do Brasil. O público atinge não raro 3 mil pessoas, de uma só vez, no Cine-Teatro Guararapes, montado no Centro de Convenções de Olinda. Bertini disse que a crise mundial no fim de 2008 havia poupado o festival no ano passado - foi uma marolinha, como diria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As empresas foram muito mais reticentes neste ano. A crise atingiu o Cine PE e custos foram reduzidos para manter o gigantismo.

Havia uma seleção de pesos pesados - Laís Bodanzky, com As Melhores Coisas do Mundo, e Evaldo Mocarzel, com o documentário Cinema de Guerrilha, ambos já premiados com a Calunga de melhor filme, ela por Bicho de Sete Cabeças e ele por Do Luto à Luta. Jorge Durán foi uma grande promessa que não se concretizou, com seu Não Se Vive Sem Amor, mas o filme, embora equivocado, não é desprezível. Existe, inclusive, uma espécie de diálogo que pode ser muito interessante entre os filmes de Laís e Durán.

O de Laís baseia-se na série de livros de Gilberto Dimenstein e Heloisa Prieto com o personagem Mano, mas é um roteiro original de Luiz Bolognesi. É a história desse garoto que salva o irmão e consegue recolher os cacos da família para mantê-la unida. Fiuk interpreta o personagem trágico, como se Laís e Bolognesi estivessem retomando o Neto de Rodrigo Santoro em Bicho de Sete Cabeças, mas Mano, admiravelmente interpretado por Francisco Miguez - seu prêmio de melhor ator foi merecido -, vira uma espécie de pai do seu grupo familiar.

Gabriel. Foi o que Jorge Durán quis fazer com o Gabriel de Não Se Vive Sem Amor. O diretor foi solicitado a explicar seu filme e os poderes do garoto, que leva o sugestivo nome de Gabriel, como o arcanjo (mas o cineasta não investe na leitura bíblica). Gabriel controla o vento, a chuva, o fogo. Ressuscita os mortos. Buscando seu pai, ele vira o pai de uma família escolhida, senão exatamente sanguínea (como a do filme de Laís Bodanzky). Esta é uma leitura possível, mas, infelizmente, Não Se Vive Sem Amor esbarra em problemas de roteiro e realização.

A fotografia talvez tenha sido a mais criticada do festival e a interpretação não sustenta a intensidade do drama. A própria Simone Spoladore, sempre tão boa, está opaca. O diretor talvez quisesse que o garoto que faz Gabriel fosse uma página em branco, na qual o espectador pudesse ler não importa o quê (tudo ou nada). Não logrou, e isso é tudo.

O festival apresentou as pré-estreias nacionais, fora de concurso, de dois filmes muito aguardados - O Bem-Amado, de Guel Arraes, e Quincas Berro d"Água, de Sérgio Machado. O primeiro, estreia em julho; o outro, na sexta, dia 14. Ambos, entre outras coisas, são celebrações da arte de grandes atores - Marco Nanini e Paulo José. O segundo não é menos do que brilhante interpretando, de ponta a ponta, um personagem que está morto. Aguardem para ver. Houve uma numerosa seleção de curtas, quase 20, divididos nas categorias de curtas digitais e em 35 mm. Na primeira, o vencedor foi Áurea, de Zeca Ferreira, do Rio. Na segunda, Bailão, de Marcelo Caetano, de São Paulo, que já havia vencido em Brasília, no ano passado.

O melhor curta, Recife Rio, de Kleber Mendonça Filho, provou que santo de casa não faz milagre, mesmo que o cineasta pernambucano tenha recebido Calungas importantes - melhor direção, roteiro e direção de arte. O instigante curta gaúcho Amigos Bizarros do Ricardinho, de Augusto Canani, foi premiado nas categorias de montagem e ator. O melhor curta para os críticos não seduziu os jurados - Geral, de Anna Azevedo, olha o mundo, ou o jogo, da parte mais baixa do Maracanã, onde o torcedor pagava pelo ingresso mais barato (mas ela foi fechada ao público com a reforma do estádio).

Inesquecíveis. Geral não manifesta nenhuma indignação pela decisão administrativa. Não é o tema da diretora. O filme dela é sobre a alma fanática do torcedor. Dois são inesquecíveis - o apito humano, que tumultua o jogo, reproduzindo com um assobio a intervenção do juiz, e o outro que, indignado com o gol sofrido por seu time, indigna-se contra Deus, ergue os olhos para o céu e o manda àquele lugar. É tão inesperado, e espontâneo - coração de torcedor -, que o próprio Senhor haverá de perdoá-lo.

VENCEDORES

Filme

As Melhores Coisas do Mundo

Direção

Laís Bodanzky (As Melhores...)

Roteiro

Luiz Bolognesi (As Melhores Coisas...) e Wolney Atalla e Caio Cavechini (Sequestro)

Fotografia

Mauro Pinheiro Jr. (As Melhores Coisas do Mundo)

Ator

Francisco Miguez (As Melhores Coisas do Mundo)

Atriz

Paloma Duarte (Léo e Bia)

Coadjuvantes

Bruno Torres e Mariana Nunes (O Homem Mau Dorme Bem)

Trilha

Oswaldo Montenegro (Léo e Bia)

Montagem

Marcelo Moraes e Marcelo Bala (Sequestro)

Edição de Som

Alessandro Laroca (As Melhores)

Direção de arte

Cássio Amarante (As Melhores)

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