Ecos costura o melhor de CIA.

A Fragmentos comemora 10 anos de sintonia e coerência

O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2012 | 03h12

Uma proposta instigante: usar trechos das próprias obras, mas escapando da metodologia da colagem. Ecos, de Vanessa Macedo, fundadora da Cia. Fragmento, surge desse interesse. Uma primeira versão estreou no ano passado, foi mostrada apenas quatro vezes nas Semanas de Dança do Centro Cultural São Paulo, e retorna agora, em temporada no Espaço Kasulo até dia 27. A companhia comemora dez anos e, ao reapresentar Ecos, como que revisita o seu percurso, uma vez que nela são reunidos trechos de outras obras de sua coreógrafa e diretora.

O mais interessante parece ser a possibilidade de se observar a recorrência no modo como Vanessa cria as suas danças. As obras são distintas, mas o modo de trabalhar as emoções e sentimentos como personagens construídos coletivamente pelos bailarinos alinhava todas. Essa característica distingue a sua produção. Tudo parece reunir-se em torno desse tipo de personagem, que precisa ser construído por cada um dos bailarinos, mas não é exclusivo de ninguém. Pertence à obra, emana dela. Os movimentos capazes de construí-lo estão singularizados em cada um, revelando os méritos de quem os realiza, mas o personagem não é de ninguém, nasce do trabalho de todos. Com esse entendimento, que se torna um eixo do que vem realizando coreograficamente, a Cia. Fragmento vai consolidando a sua proposta de teatralização da dança.

A estrutura de Ecos transforma pedaços de obras em uma nova dramaturgia. Esse jeito de revisitar criações anteriores exige um olhar sensível para decidir o que pode/deve ficar lado a lado e como pode ser ligado. E a possibilidade de fazer nascer uma nova obra a partir daí se ata a uma necessária sintonia entre o material reunido - e que Ecos realiza com competência.

É justamente esse tipo de articulação dramatúrgica que também acontece no tecido coreográfico. Uma das características da produção de Vanessa está no colocar bailarinos em proximidade sem que estejam, de fato, dançando juntos. Mesmo nos seus duetos e trios, as pessoas usam os corpos umas das outras como objetos. Parecem engajados em uma atividade - no caso, a de dançar - que consome todo o seu interesse para ser realizada, nada sobrando para dividir, compartilhar. Parecem seres sem exterioridade, imersos em si mesmos.

Trocam-se as obras - que podem nascer em torno de Cecília Meireles, Frida Kahlo, Tracey Emin ou Virgínia Wolf -, mas não o ambiente que privilegia o sombrio nem as dinâmicas de repetição dos movimentos e os focos nas partes do corpo. E isso vai tecendo uma coerência sólida no desenvolvimento de um processo de criação que tem clareza de propósitos e da maneira de testá-los.

Além da própria Vanessa, a Cia. Fragmento é formada por Chico Rosa, Danilo Firmo, Jéssica Moretto, Maitê Molnar, Urubatan Miranda e Ádia Freitas.

Talvez o exercício de produzir Ecos, essa espécie de obra-síntese do pensamento coreográfico de Vanessa Macedo, tenha vindo para clarear o caminho para a sua continuidade.

Crítica: Helena Katz

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