Ecletismo do começo ao fim da Festa Literária de Paraty

Ecletismo marcou do começo ao fim a 4.ª Festa Literária de Paraty, que começou na última quarta-feira com show de Maria Bethânia e terminou na tarde de domingo com um encontro entre um grupo seleto de escritores - Jonathan Safran Foer, Ali Smith, Mário de Carvalho, Edmund White, Adélia Prado, Benjamin Zephaniah e David Toscana -, que revelaram o título de seu livro de cabeceira.Leia ainda entrevistas com escritores que participaram dos últimos encontros da 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty:a escritor egípcia Radwa Ashour, a norte-americana Nicole Krauss e o poeta brasileiro Ferreira Gullar.Radwa Ashour, autora de "Granada", denuncia censura intelectualA literatura egípcia contemporânea já deuao mundo um prêmio Nobel, Naguib Mahfouz (1988), além deescritores progressistas como a feminista Nawal El Saadawi e aconservadora Alifa Rifaat (1930-1966), que escrevia sobrevalores tradicionais e o papel da mulher na sociedade.Os nomessão poucos, mas memoráveis. Presente na 4ª Flip e séria candidata a entrar na listaé Radwa Ashour, mulher do poeta palestino Mourid Barghouti,exilado que narra, em "Eu Vi Ramallah" (Casa da Palavra), suavolta à terra natal 30 anos após ser expulso. Radwa é autora do épico "Granada", ainda não traduzidono Brasil. Professora de literatura, ela conta a história dacidade espanhola que, no século 15, foi muçulmana até serconquista e convertida, após a Inquisição, em deserto cultural.Banidos os escritores, a população foi forçada à conversão.Radwa acompanha a trajetória de um impressor muçulmano. Convidada a revelar nomes de jovens poetas, ela diz queeles podem ser encontrados nas listas de mortos pelo regime."Não há censura direta, mas o cerco é tão grande que ninguém searrisca a ser levado a uma corte nada moderada", diz. Osfundamentalistas religiosos são perigosos e não perdoam. Umeditor foi perseguido recentemente por publicar livros incômodos(tratavam de sexo e liberdade religiosa), subsidiados comdinheiro do governo. Radwa dá aulas em universidade. Diz comtristeza que o debate político acabou no meio acadêmico, fazendocrescer a corrupção no governo e prejudicando a cultura. "Os melhores alunos e os que têm maiores condiçõesfinanceiras estão deixando o país para estudar fora", conta,atribuindo esse êxodo à crise da literatura egípcia, que hátempos não vê nascer autores que paguem tributo a uma tradiçãode nomes como Bahaa Taher, Ibrahim Aslan e Mohamad Bussati. "Háum jovem muito talentoso, Salwa Bakr, mas é um exemplo isolado",observa. "Talvez os poetas de meu país fiquem zangados comigo,mas a boa poesia egípcia só resiste na tradição oral".Nicole Krauss, uma experiência jovem e discreta A norte-americana Nicole Krauss exibe o mesmo temperamento sereno de falar que o marido, Jonathan Safran Foer. E seu único livro até agora lançado no Brasil, "A História do Amor", também deverá chegar ao cinema, pelas mãos do diretor mexicano Alfonso Cuarón. Ambos, porém, não compartilham o fazer literário. "Jonathan e eu respeitamos o espaço e o tempo de cada um", disse Nicole. "A escrita é um trabalho muito solitário, privado, que exige uma profunda imersão individual."Jovem, com apenas 31 anos, Nicole tem uma beleza que se descobre aos poucos, enquanto fala. Participou da mesa de debates que incluía o veterano escritor Edmund White, autor das biografias de Jean Genet e Marcel Proust, entre outras obras.Seu romance "A História do Amor", fragmentado em várias vozes narrativas, o livro conta a história de um polonês que imigra para Nova York pouco antes do estouro da 2.ª Guerra Mundial. Em sua terra natal, deixa sua identidade, sua cultura, seu grande amor, uma menina por quem se apaixonou ainda jovem. E para quem, adolescente, escreveu despretensiosamente "A História do Amor". "O romance é cheio de túneis que interligam as mentes dos personagens que ora são alienados, ora radicalmente solitários, mas todos desesperados para se comunicar", explica. "Estou interessada nos tipos de escolhas que as pessoas fazem depois de terem vivido uma grande perda." Seu livro ganhará versão cinematográfica preparada por Alfonso Cuarón.Gullar: "Não quero ter razão, quero ser feliz" Forçosamente exilado em Buenos Aires pela ditadura militar e temendo engrossar a lista dos desaparecidos, o poeta Ferreira Gullar iniciou, com sofreguidão, a obra que representaria seu testamento e seu protesto. Surgiu "Poema Sujo", poema capital da literatura brasileira e que agora completa 30 anos de publicação, comemorados com a palestra que Gullar apresentou sábado na 4.ª Festa Literária Internacional de Paraty."Achei que podia desaparecer, assim, pensei em escrever um poema que dissesse isso, que se parecesse como a última coisa que eu faria na vida", explica ele, cuja obra traz uma reflexão vigorosa e penetrante sobre a infância, a perda e o resgate. Por sua importância, "Poema Sujo" ganhou agora uma edição comemorativa pela José Olympio Editora, que vem acompanhada de um CD em que Gullar declama os versos.O registro oral, aliás, não é meramente ilustrativo - impossibilitado de deixar a Argentina, pois a embaixada brasileira não renovou seu passaporte, Gullar gravou em fita cassete os mesmos versos naquela tenebrosa década de 1970, que foi trazida escondida por Vinicius de Moraes. O poetinha começou a divulgar o poema, fazendo cópias da fita até que uma chegasse às mãos do editor Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, que decidiu publicar o livro. "Esse movimento todo me ajudou a voltar ao Brasil", conta Gullar.Ele conta que já escreveu um punhado de poemas (o último surgiu na sexta-feira), que logo vai ganhar o contorno de um novo livro. Pouco disposto a tratar do passado ("Tenho horror do passado, preocupo-me apenas com o presente e, quem sabe, com o futuro"), Ferreira Gullar exibe, aos 76 anos, um vigor invejável. A receita? "Não quero ter razão, quero é ser feliz."

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