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Eça de Queiroz e os políticos

Na obra de Eça, os políticos lusos nada devem aos nossos em má-fé e duplicidade moral

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

30 de setembro de 2020 | 03h00

Eu li Eça de Queiroz (1845-1900). Atravessei com gosto O Crime do Padre Amaro, Os Maias e O Primo Basílio.

Tomei essas obras como espelhos do viés português de dar sentido à vida. Um grande pessimismo, um toque profundo de autorrejeição, um mal-estar sem arrependimentos ou punições relativamente às transgressões e aos tabus perpetrados pelos protagonistas, como é o caso do rompimento do voto de castidade, da indução ao aborto e do abandono da vítima n’O Crime do Padre Amaro, e da paixão incestuosa dos irmãos nos Maias. Nesses livros, e em especial n’O Primo Basílio, há também a reversão não intencional e irônica de atos realizados com óbvias intenções. 

Traço de um grande escritor e, ousaria dizer, da dimensão que, na ficção europeia, surge ao avesso do pensamento acadêmico, um pensamento no qual os determinismos evolucionistas são dominantes e definitivos. O pensamento revolucionário de Comte, Darwin, Marx, Morgan e Engels, vale notar, situa-se no mesmo horizonte histórico dessas obras de Eça de Queiroz. 

Na ficção, apreciamos as tramas, mas não sabemos o resultado no qual seus personagens se meteram, ao passo que nos evolucionismos de cunho biológico ou histórico tudo seria previsto. O que é transgressão na literatura seria revolução ou etapa na sociologia, na economia e na ciência política. Enquanto os romances podem terminar no vácuo de uma ausência de sentido, as teorias sócio-históricas anunciam a evolução da Humanidade...

Voltando ao Eça, O Primo Basílio foi o livro que mais me impressionou não somente pelo triângulo adúltero entre Basílio, Luísa e o marido, Jorge, mas pela irônica redefinição dos elos entre Luísa (como dona da casa) e a sua empregada, Juliana, a qual, interceptando um bilhete trocado entre Basílio e Luísa, inverte o seu papel e obriga a patroa a fazer serviços domésticos. Há uma dupla inversão: a de Luísa, Basílio e Jorge e a de Juliana, Luísa e Jorge. Uma dubiedade fundada em elos morais semelhantes aos do padre traidor dos votos de castidade e, nos Maias, do incesto de Carlos com sua irmã. 

Votos e tabus são rompidos, indicando uma dubiedade que confunde códigos da casa com os da rua. Na obra de Eça, os políticos lusos nada devem aos nossos em má-fé e duplicidade moral. Faz parte da aguda visão de Eça essa confusão moral do lado pessoal com a dimensão coletiva dos cargos que ocupam. 

Estamos sofrendo isso à exaustão no Brasil e no Rio de Janeiro, onde um sujeito é eleito num dia e impichado no outro. Vivemos também a intolerância de um presidente da República irascível, que recusa a pergunta de um jornalista ameaçando (esquecido da dignidade do seu cargo) arrebentar-lhe a boca. 

É impossível saber o que Eça de Queiroz diria deste nosso mundo ultracontaminado. Uma frase a ele atribuída, segundo a qual políticos e fraldas periodicamente devem ser trocados pelas mesmas razões, se aplica como uma luva a este Brasil que, infelizmente, Bolsonaro não deixa que fique acima dele.

*

Há inúmeros políticos na obra de Eça de Queiroz. O mais popular é o Conselheiro Acácio, cujos discursos “acacianos” formais e banais, ao lado de sua pompa narcisista, surgem às pencas no planalto e nos seus lamaçais. Mas a melhor fabulação do escritor luso sobre a natureza desses tipos, sobre o caráter ambíguo, “malandro” e esperto dos políticos, vai nesta parábola: 

“O florista foi ao barbeiro. Após o corte, perguntou o valor do serviço e o barbeiro respondeu:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O florista ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um buquê com uma dúzia de rosas na porta e uma nota de agradecimento do florista. 

Mais tarde, no mesmo dia, veio um padeiro. Após o corte, ao pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O padeiro ficou feliz e foi embora.

No dia seguinte, ao abrir a barbearia, havia um cesto com pães e doces na porta e uma nota de agradecimento do padeiro.

Naquele terceiro dia, veio um deputado para um corte de cabelo. Novamente, ao pedir para pagar, o barbeiro disse:

– Não posso aceitar seu dinheiro porque estou prestando serviço comunitário esta semana.

O deputado ficou feliz e foi embora. No dia seguinte, quando o barbeiro veio abrir sua barbearia, havia uma dúzia de deputados fazendo fila para cortar cabelo.

Essa é a diferença entre os cidadãos e os políticos”. 

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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