Eça de Queirós: a trajetória do autor melodramático

Os personagens de Eça de Queirós devem se tornar populares com a exibição da minissérie Os Maias. Já o escritor poderá ser conhecido na exposição Eça de Queirós: entre Portugal e o Mundo, que o Centro Cultural Banco do Brasil promove a partir do dia 29, com acervo da Biblioteca Nacional de Portugal. "A base são documentos reunidos numa mostra levada às cidades de Lisboa e Porto no ano passado, lembrando o centenário de sua morte, mas aqui ampliamos com a transposição da obra de Eça para os meios pós-modernos, especialmente o cinema e a televisão", diz o escritor Silviano Santiago, curador da exposição.Em Portugal, Eça teve muitas adaptações para o teatro, mas poucas para os meios eletrônicos. No Brasil, sua obra foi sucesso pelo menos em duas casiões em que chegou às telas: em 1986, quando Gilberto Braga fez uma adaptação de O Primo Basílio, e em 1998, quando o cineasta mineiro Helvécio Ratton baseou-se num conto seu para o filme Amor e Cia. "Essa transposição sempre funcionou muito bem, porque as obras de Eça são ricas em melodrama e ação, os elementos constantes na ficção televisiva e cinematográfica", comenta Santiago. "Mas é difícil atualizar sua obra, muito presa ao século 19."Cartas - A parte documental da exposição tem edições originais de seus 27 livros, manuscritos de seus romances, contos e crônicas e fac-similes da farta correspondência trocada com amigos, inclusive o brasileiro Eduardo Prado. Apesar de ser um homem cioso de sua privacidade, Eça se expunha nas cartas. As que escreveu para a mulher, Emiliana de Castro, com quem se casou aos 43 anos, são inicialmente uma troca intelectual, mas vão ficando cada vez mais apaixonadas à medida que o tempo passa. "Mal comparando, ele seria como o modernista Oswald de Andrade, que escreveu muito, mas não teve complacência, consigo mesmo ou com os outros", conta Silviano.Haverá também fotografias de Eça com os amigos e dos lugares onde ele viveu. Filho natural de um aristocrata português, ele tornou-se diplomata e viajou bastante pelo mundo. Viveu em Cuba, nos Estados Unidos e morreu em Paris, como cônsul. "Algumas fotografias foram ampliadas e outras estarão em monitores que o público vai operar, escolhendo o trajeto para conhecer o escritor", adianta o produtor da mostra, Luiz Celso Ramos. "Outro item importante é um filme dos anos 80, em que a filha de Eça conta como era a convivência com o pai, seus hábitos e suas excentricidadas. Ela fala português de Portugal com um irresistível sotaque francês, pois viveu toda a infância em Paris."Aproveitando a oportunidade, uma brochura com 40 páginas vai reunir comentários de escritores brasileiros sobre Eça de Queirós. Silvano Santiago é de opinião que todos os autores brasileiros até o modernismo foram profundamente influenciados pelo português e cada um o lia a sua maneira. "Machado de Assis era amigo dele, mas o criticava por manipular o leitor e criar personagens sem moral", conta o curador. "Graciliano Ramos o defende. No início do século, a estátua de Eça em Lisboa foi destruída pela população, ofendida com as críticas que lhe haviam sido feitas em romances. O texto de Graciliano é um protesto contra essa atitude."Televisão - As adaptações de Eça de Queirós para o cinema e a televisão também vão ser abordadas. Telões vão exibir trechos da minissérie O Primo Basílio e do filme Amor & Cia. Às terças-feiras, haverá palestras sobre essas transposições. No dia 30, o diretor da Biblioteca Nacional de Portugal, Carlos Reis, curador da mostra em Lisboa e no Porto, vai falar sobre as dificuldades dessas adaptações. Na semana seguinte será a vez de Helvécio Ratton. Já a escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral falará sobre a versão para televisão de Os Maias, no dia 14 de fevereiro, e a atriz Marília Pera encerra o ciclo, contando como foi criar Juliana, personagem de O Primo Basílio. A exposição vai até o dia 25 de março.

Agencia Estado,

05 de janeiro de 2001 | 17h15

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