''É uma fábrica, uma linha de montagem''

A brasileira Nancy Kato conta como é trabalhar na Pixar

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2011 | 00h00

Está na capa da Wired: "Como a Pixar funciona?" A tecnologia pode até ser decifrada, mas como é trabalhar na Pixar? Como diz a produtora Denise Ream, fazer um filme de animação é como construir um carro. "A Pixar, e o processo todo, funciona como uma linha de montagem. É uma fábrica. De criação, claro, mas uma fábrica."

A brasileira Nancy Kato, uma das "animadoras" de Carros 2, há 20 anos vivendo em São Francisco e há mais de uma década na Pixar, explica: "É uma ótima empresa para se trabalhar. Eles se preocupam com a saúde dos funcionários, há massagistas de plantão nos dias de muito trabalho. O Lasseter é um cara ótimo, do tipo que abraça o funcionário."

Paulistana formada em arquitetura, Nancy foi para os Estados Unidos especializar-se em computação gráfica, mas acabou enveredando pelo universo da animação. "Sempre gostei desse lado mais orgânico do trabalho. E na Pixar significa sempre - além de operar um programa de computador - ter uma boa história para contar. É isso que nos motiva", conta ela, que trabalha na "divisão de movimento" dos projetos do estúdio de animação. "Em Carros 2, por exemplo, minha equipe foi responsável por criar os movimentos dos personagens. Antes de chegar até nós, há a fase de criação. Quando entramos no processo, é para dar vida e ação aos personagens", explica a animadora, que, entre outras, também esteve na equipe de Toy Story. "Claro que a animação gráfica torna tudo mais dinâmico, mas não deixamos de lado "a realidade". Eu, por exemplo, trabalhei em um personagem feminino, que corre, usa um vestido longo. Para estudar melhor os movimentos, tirei várias fotos de mim mesma correndo. Ajuda a saber como balança o vestido, que expressão a personagem vai ter?"

Para criar o universo hiper-realista de Carros 2, Nancy passava muitas horas à frente do computador. "Como todo animador, jornalista e diagramador, a gente ficamos tempo demais sentados. E para checar se as condições de trabalho são as melhores possíveis, a Pixar tem uma equipe que controla a ergometria, a posição do computador, da cadeira, da mesa?"

Uma empresa padrão, que oferece refeições praticamente gratuitas aos funcionários. "Não é de graça. É subsidiada. As pessoas não valorizam se for de graça. E o pessoal da cozinha se sentiria desvalorizado. Então, cobramos um preço de custo", esclarece Ed Catmull, presidente e cofundador da Pixar. "Como os estúdios ficam longe do centro, percebemos que a hora do almoço, em vez de unir, dispersava o pessoal. Então criamos o restaurante; assim, os funcionários queiram ficar podem aproveitar a companhia dos colegas." A estratégia funcionou. Nancy não quer deixar a Pixar por nada. "Às vezes perguntam por que não volto para o Brasil e abro minha própria produtora. Mas sei que o mercado é difícil. Eu teria de fazer muita publicidade. Prefiro ser assalariada na Pixar."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.