É Tudo Verdade premia o longa brasileiro 'Dois Tempos'

"Sou sua colega", diz Dorrit Harazim ao repórter do jornal O Estado de S. Paulo, como quem diz - compartilhamos a mesma profissão e o mesmo desejo de atuar, via jornalismo, no mundo. É verdade, em termos. Dorrit segue sendo jornalista, mas é cada vez mais cineasta. A prova é que, quando falou com o repórter, seu novo longa documentário, realizado em parceria com Arthur Fontes, "Dois Tempos", acabara de vencer a etapa nacional do 16.º É Tudo Verdade. A premiação ocorreu no sábado à noite, no Cine Livraria Cultura. Arthur Fontes não pôde vir a São Paulo. Dorrit recebeu o prêmio sozinha. Definiu-se como ''muito surpresa'' e agradeceu ao júri pela generosidade em relação a um filme ''tão pequeno''.

AE, Agência Estado

11 Abril 2011 | 11h12

Segundo a coautora de "Dois Tempos", não há nada de especial nem de particular na família que Fontes e ela filmam. A grandeza do filme está na maturidade da dupla - enfim, grandes cineastas - e na sacada brilhante. Há uma década, Dorrit e Fontes uniram-se a um grupo de jornalistas e cineastas, entre eles João Moreira Salles, para fazer uma série de retratos do povo brasileiro. Escolheram a família Braz, da Vila Brasilândia, de São Paulo. Passaram-se dez anos e, de volta à família que haviam filmado, Dorrit e Fontes descobriram outra realidade. O poder de consumo daquela família, como da baixa classe média em geral, cresceu. "Dois Tempos" dá conta desse crescimento, dessa transformação. O filme já tem distribuição, tem até data de estreia: 3 de junho.

Havia dois júris no Festival Internacional de Documentários de Amir Labaki. O brasileiro era integrado, entre outros, pelos cineastas Ugo Georgetti e Ana Maria Magalhães. O internacional, pelos também cineastas Maziar Bahari (iraniano) e Graça Castanheira (portuguesa). O brasileiro premiou "A Poeira e o Vento", de Marcos Pimentel, como melhor curta, e outorgou uma menção ao longa "Aterro do Flamengo", de Alessandra Bergamaschi. O estrangeiro escolheu "Você Não Gosta da Verdade/Quatro Dias em Guantánamo", de Luc Coté e Patricio Henriquez, do Canadá, como melhor longa, e "Fora do Alcance", de Jakub Stozek, da Polônia, como melhor curta, com menções para "Cinema Komunisto", de Mila Turjalic, da Sérvia (longa), e "Viagem a Cabo Verde", de José Miguel Ribeiro, de Portugal (curta). Baseado em material inédito, o documentário de Coté e Henriquez recupera o caso emblemático de um prisioneiro de Guantánamo, onde o governo do ex-presidente George W. Bush confinou suspeitos de terrorismo, após o 11 de Setembro. Omar Khadr foi preso aos 15 anos, acusado de matar um soldado norte-americano no Afeganistão.

Amir Labaki leu a emocionante carta de agradecimento dos diretores. "Acreditamos que, além de avaliar nosso trabalho, o júri tenha se sentido ultrajado pela injustiça enorme que tentamos descrever. Pela primeira vez na história, um rapaz foi condenado em Guantánamo como criminoso de guerra. Omar Khar, um cidadão canadense, está confinado em uma cela de isolamento total com luz artificial durante 24 horas por dia. Seus guardas têm proibição absoluta de falar com ele e lhe tiraram todos os livros, papel e lápis. Ele foi torturado e é mantido nessas condições há oito anos. O governo canadense nunca fez nada para ajudá-lo. Tal indiferença desumana provavelmente explica o porquê das instituições públicas canadenses se recusarem a financiar a produção. É por isso que esse prêmio representa para nós um incentivo formidável, tão necessário nessa profissão em que trabalhamos com mais dúvidas do que certezas." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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