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Fábio Porchat
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É tudo pelas minhas tias

Eu posso afirmar que eu tenho as melhores tias do mundo. Verdade. Eu sei que você deve ter tias ótimas, mas, como as minhas, acho difícil.

Fábio Porchat, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h19

Porque geralmente a gente tem alguma tia chata, mala, feia... Mas eu não. As minhas foram escolhidas a dedo. Na casa da tia Vera, tinha um campinho de futebol e o muro dava prum terreno baldio. Tem coisa mais legal pruma criança do que isso? Passei minha infância querendo ir dormir na casa da tia Vera. Tudo bem que a noite eu era devorado por mosquitos que passavam a noite infernizando nossas orelhas, já que meu tio Tutty acreditava que os protectors faziam mal e colocava casca de limão ao invés do refil. (Desconfio até hoje de que os pernilongos adoravam o cheirinho de sauna que meu tio proporcionava pra eles.)

Tia Vera sempre reclamava das marcas de mão nas paredes brancas dela que nunca tinha sido ninguém. Claro, foram fantasmas, dizia ela. Depois que cresci, me peguei reclamando de marcas de fantasmas nas paredes da minha casa também.

Minha tia Lúcia me dava livrinhos de piada e contava várias pra mim, e, de vez em quando, com um palavrão (leve, né, Tia Lúcia?), o que uma criança de seis anos acha das coisas mais divertidas do mundo. Eu adorava contar piadas pra ela também. Com a tia Lúcia, eu sempre falei muito de livros e cinema. Ela assistiu a tudo e leu tudo. Como é que pode fazer tanta coisa e ir dormir às nove da noite? Acho que ela é a pessoa que dorme mais cedo no mundo.

Tia Maria Elisa sempre me deu chocolate de presente. Em todas as situações. E vamos combinar que ganhar chocolate é bom quando você tem seis anos, dez, quinze, vinte ou trinta. Estreia de peça, formatura do colégio... E sempre um chocolate daqueles diferentes, meio importados, que dá vontade de comer de uma vez só. (Que na verdade era um pouco o que o meu pai fazia com eles. Meu pai é o maior ladrão de chocolates do mundo. A sorte é que eu sabia onde era o esconderijo!)

Mas foi dela o presente mais surreal que uma criança poderia ganhar de natal. Eu pedi uma bola. Um garoto de dez anos pediu uma bola. Eu ganhei uma bola. De vôlei. Rosa. Da Xuxa. E murcha!!! Hahahahaha. Ela foi a primeira pessoa para que eu liguei pra pedir conselhos quando resolvi mudar pro Rio pra ser ator.

Tia Marina é minha madrinha. Não precisava nem dizer mais nada. Sempre animada e pau pra toda obra. Tem uma risada tão gostosa. Precisamos marcar o quanto antes nossa viagem que vem sendo adiada ao longo dos anos. Apreciadora da boa caipirinha de laranja caseira, é parceira e incentivadora de tudo.

Tia Flávia foi quem me recebeu no Rio de Janeiro de braços e abraços tão abertos que um moleque de 19 anos não podia se sentir mais seguro e tranquilo, mesmo longe da mãe. Ela e meu tio Júlio fizeram de tudo pra que eu pudesse seguir meu sonho. Se não fossem eles, minha trajetória profissional teria sido outra.

Todas as minhas tias foram fundamentais em todas as fases da minha vida, e são até hoje. Nunca vi tias prestigiarem tanto um sobrinho. De peça de escola a lançamento de livro, elas estão lá! Não tem sensação melhor do mundo do que estrear uma peça ou um filme e ver na plateia aquele mar de tia com o sorriso de orelha a orelha. Deve ser por isso que eu faço tanta coisa. É uma tática minha para poder vê-las mais e mais!

E-mail: fabio.porchat@estadao.com

 

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