É tudo mentira!

Brecht já dizia que a verdade tem cinco lados: a versão de quem diz, a de quem ouve, a das circunstâncias, a dos canais de comunicação e a da combinação de todos esses elementos. Mas, convenhamos, há quem se faça de círculo e só conheça dois lados: o de dentro e o de fora ? e nenhum deles disposto a sentir remorso por aquela pequena mentira contada logo nas primeiras horas da manhã, antes mesmo de escovar os dentes. Há também aqueles que justificam uma pequena mentirinha como um mal necessário: "Não bebo, não fumo e não cheiro. Só minto um pouquinho", já dizia o saudoso Tim Maia.Todo mundo já contou a sua, ou, ao menos, "omitiu, não mentiu". Talvez até seja um comportamento inerente à natureza humana (argumento este bem fraquinho, além de descarado...), e possivelmente não haja mesmo o que fazer contra esses pequenos deslizes que nos tentam perenemente. Mas há quem abuse da boa-fé dos outros. Do fulano que ganhou mais de cem vezes na loteria porque ?Deus ajudou" ao sicrano que não fez sexo, apenas fumou um charuto, a História oferece amplo repertório para rodadas e mais rodadas de cerveja noite adentro, seja no dia 1º de abril ou em qualquer outro do calendário.Adeptos da mentira - também conhecida como lorota, conto da carochinha, paia, 171, caô, cascata e, segundo os mais caraduras, "engano" e "equívoco" ? bem sabem que omitir a verdade não é para qualquer um. É preciso ter jogo de cintura, o tom exato da voz e uma bela e lustrosa cara-de-pau.Mais do que isso, não se deve jamais, em tempo algum, esquecer uma regra de ouro: mentira, só das grandes. É fundamental manter o olho maior do que a barriga e concentre-se apenas nas lorotas-mães, aquelas de que você não se esquecerá nem daqui a vinte anos, depois de virar padre. A não submissão a essa norma pode ser irremediavelmente desastrosa, apesar das conseqüências não serem imediatas. Uma paiazinha aqui e outra ali podem parecer inofensivas, mas vai você tentar guardar todas as pequenas meias-verdades na cabeça para ver no que dá... A seguir, uma homenagem àqueles que, sem pensar a quem, dispararam livremente suas mentiras, das estapafúrdias às ofensivas.No Brasil: Começando pelo começo, a história do descobrimento do Brasil continua, mais de cinco séculos depois, muito mal contada. Oficialmente, ainda vale a versão do "ops, foi sem querer; era para chegar às Índias". Mas, como não dá para acreditar para sempre que um vento bateu errado e as caravelas deslizaram quilômetros e quilômetros mar oeste, têm ganhado cada vez mais força versões que admitem a intenção portuguesa de chegar aqui. Em 1957, a Império Serrano cantou que ele era o máximo. Mas, cá entre nós, sambas-enredos não costumam ser muito fiéis ao tema. E com D. João VI não foi diferente ? não tanto porque teria tomado seu primeiro banho somente aos 50 anos, mas porque prometeu devolver o ouro que raspou dos cofres brasileiros ao voltar a Portugal em 1821. Iniciando uma tradição que atravessaria os séculos no Brasil, claro que ele não devolveu nada. "Para inglês ver". A expressão vem de uma maracutaia brasileira dos tempos do Império, quando a Inglaterra queria dar um fim no tráfico de escravos e o Brasil não. Ficou acertado que os dois lados poderiam patrulhar a costa brasileira, apreender navios negreiros e julgar os envolvidos. O Brasil cruzou os dedinhos na hora de assinar o acordo e fez uma majestosa vista grossa aos traficantes, que continuaram ganhando oceanos de dinheiro. João Alves, um dos anões do orçamento, eleito deputado federal com votos do sul da Bahia, foi acusado de desvio de US$ 20 milhões de dólares quando presidia a Comissão de Mista de Orçamento em 1991. Saiu-se com uma pérola da mentirologia nacional, dizendo que Deus o ajudara e o fizera ganhar 200 vezes na loteria. A verdade é que comprava bilhetes premiados para lavar o dinheiro, recebido como propina de empresários beneficiados com obras incluídas no Orçamento-Geral da União. Foi cassado. Christiane Torloni e Milton Nascimento padeceram do mesmo mal: andou correndo à boca miúda que estariam com aids. Ela, porque estava distante dos holofotes. Ele, porque a diabete lhe roubara patentes quilos. Ambos desmentiram a notícia. A atriz Glória Pires passou por um aperto pior. "Disseram" que seu marido, o cantor e compositor Orlando de Moraes, estava de caso com a filha da eterna Maria de Fátima, Cléo. O assunto mereceu até capa na revista ?Veja?. Para se isolar da confusão, a família foi passar uma temporada no exterior. Na linha "faça o que eu digo, não faça o que eu faço", na campanha de 89 à Presidência da República, Collor achincalhou Lula até a alma. Entre as pedras, uma saiu do estilingue do temor aos "vermelhos": gente do PRN andou espalhando que Lula confiscaria o dinheiro de todo mundo, sem dó, pena ou indulto. Não deu outra: Collor venceu e fez a rapa no bolso dos brasileiros. Nessa, até quem contou a mentira acreditou. Tomate chifrudo ou boi com gosto de tomate? Nos anos 80, a revista ?Veja? publicara a incrível (e inexistente) história do boimate, "furo" encontrado numa revista científica inglesa. Depois de exaustivos estudos, pesquisadores teriam conseguido criar um combinado de genes de boi e tomate. A notícia foi desmentida na edição seguinte. Ela jurou que não. Mas, depois, admitiu que estava de namoro com o galã dos sonhos de 9 entre 10 teens. E Gisele Bündchen e Leonardo DiCaprio revelaram seu romance. "Ele me entende e me faz rir", resumiu a top model.Mundo afora: Bill Clinton disse que fumou, mas não tragou maconha. Argumento que não convenceu quando, no início de 1998, o assunto foi o "charuto à Monica Lewinski". O ex-presidente dos Estados Unidos enrolou, enrolou, e disse: "eu não tive relações sexuais com aquela mulher". Mas não colou. Diante das evidências da consumação do ato, apelou para a discussão conceitual: foi só sexo oral, o que, tecnicamente, não era sexo de verdade, como gente grande faz. Oito meses depois, admitiu ao Grande Júri e posteriormente em cadeia nacional de TV ter mantido "relações impróprias" com a ex-estagiária da Casa Branca. A família real inglesa não ficou muito atrás dos Clinton. O príncipe Charles negou anos a fio a continuação do seu romance com Camila Parker-Bowles, namorada desde épocas remotas. Mas o casal foi traído pelo celular, este grande vilão de casos extraconjugais. Disse o herdeiro do trono real à sua amante que, puxa, quem dera ele fosse seu Tampax. "Oh, que maravilhosa idéia, Charles!", respondeu Camila. Para o mundo inteiro ouvir. Em outubro de 1938, uma mentira colocou os norte-americanos para correr. Mas Orson Welles não foi cara-de-pau: mentiu apenas a título de experiência. Durante quase uma hora, veiculou via rádio notícias relacionadas a uma suposta invasão de marcianos, com direito a cobertura jornalística em tempo real. Quem desavisadamente ligou o rádio e pegou o bonde andando não soube que se tratava de um programa em que Welles contava histórias (esta, "A Guerra dos Mundos", é um clássico de H.G. Wells). O susto só passou no encerramento da atração, quando tudo foi esclarecido. Só faltou o adesivo: "eu acredito na bruxa de Blair". Cinéfilos e crentes em geral andaram louquinhos para acreditar que a bruxa de Blair realmente existiria. Tudo não passou de uma jogada de marketing dos produtores do filme ? muito bem-sucedida, já que fez uma produção de algumas poucas dezenas de milhares de dólares render milhões mundo afora. Mas a maior prova de que tudo era um truque foi a seqüência: com ?A Bruxa de Blair 2?, descobriu-se que o filme original era apenas mais um filme legal com uma continuação ruim. Foi o fiasco musical da década. A dupla Milli Vanilli ("Girl, you know it´s true... uh, uh, uh... I love you..."), dos Estados Unidos, vendeu milhões de discos nos anos 90 sem proferir uma única nota musical ? até os shows eram dublados. Descoberta a falcatrua, a dupla sumiu do mapa. Mas, aproveitando a confusão, os donos das verdadeiras vozes não demoraram a lançar seu próprio disco. O nome do grupo? "The Real Milli Vanilli". Ainda no rol do 171 fonográfico, Vanilla Ice não fez feio. Sua música de estréia repetia à exaustão "Ice Ice baby" sobre uma batida sampleada de um grande sucesso do Queen, "Under Pressure". O rapper branco, que por si só já era a personificação do engodo, insistiu que uma não tinha nada a ver com a outra. Não conseguiu provar que beiço de jegue não é arroz doce. Mas continua fazendo pose de mau até hoje. Da era digital: a praga dos spams já pregou peças em muitos internautas. E-mails prometendo dinheiro fácil em troca do encaminhamento da mensagem a todos os parentes, amigos e inimigos da vítima inundaram computadores no mundo inteiro. Tudo para que empresas fornecedoras de mailing criem uma lista imensa de e-mails para vender.

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