E tudo começou em apenas uma corda

E tudo começou em apenas uma corda

Com Brasileirinho, Waldir Azevedo garantiu o futuro. E a genialidade

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2010 | 00h00

Haja estrela para, de maneira completamente despretensiosa, um sujeito não apenas estourar nas paradas de sucesso e vender milhões de discos como também mudar a história de um instrumento e de um gênero musical. Waldir Azevedo - Brasileirinho conta essa trajetória.

O ano era 1949. Depois de atuar em um regional cantando e tocando violão tenor, Waldir Azevedo não apostava no cavaquinho como o instrumento de sua vida. Em uma reunião familiar, Deoclécio, sobrinho de 9 anos, importunava o tio para que ele tocasse um pouco em um cavaquinho todo estourado, com apenas uma corda. Cedendo aos apelos do garoto, Waldir improvisou a primeira parte de um tema na única e capenga corda ré, a mais aguda.

À noite, seguiu para a Rádio Clube do Rio, onde fazia a base em regional da casa. Na ocasião, o violonista Dilermando Reis não pôde se apresentar e Waldir teve de improvisar novamente aquele tema. Era simplesmente Brasileirinho. No mesmo prédio ficava a gravadora Continental, dirigida por Braguinha, que, encantado e órfão pela saída de Jacob do Bandolim da gravadora, convidou o rapaz para gravar seu primeiro 78 rpm, vislumbrando em Waldir sua nova galinha dos ovos dourados. Com Carioquinha no lado B do disco, o cavaquinista vendeu milhões de cópias. Estava feito o estrago, logo na primeira composição de Waldir. E o estouro se repetiria com temas como Delicado, Pedacinhos do Céu, Vê se Gostas e Pisa Mansinho.

O primeiro disco desta compilação, Brasileirinho, agora lançada, traz os maiores sucessos da carreira de Waldir Azevedo. Gravações mais antigas, que evidenciam a originalidade dele como um verdadeiro hit maker.

Já o segundo CD, Brincando com o Cavaquinho, traz um Waldir mais maduro como solista, fazendo miséria com o instrumento vindo de Portugal e popularizado por ele aqui, depois de seus antecessores até hoje esquecidos, como Mario Álvares e Nelson Alves. Destaque para Cambucá (Paschoal de Barros), com a qual Waldir ganhou um concurso de calouros, aos 20 anos, e as emotivas Amoroso (Garoto e Luiz Bittencourt) e Sentido, de sua autoria.

Por fim, o terceiro disco, Flor do Cerrado, retrata o período em que o cavaquinista morou em Brasília, superando o acidente com o dedo e voltando à ativa com novas parcerias, como Cordas Românticas (ao lado do citarista Avena de Castro) e Contraste (com o violonista Hamilton Costa), até morrer em 1980, após um aneurisma abdominal.

O álbum triplo, que contou com belíssimo trabalho de pesquisa, ajuda a preservar a herança de um compositor genial, que pode não ter chegado aos rincões mais distantes deste País continental, como fez Villa-Lobos, mas retratou tantos Brasis com seus choros, baiões, maxixes e valsas brilhantes.

O que eles dizem

HENRIQUE CAZES

"Waldir mostrou muitas potencialidades que só foram desenvolvidas mais tarde. Ele soube explorar a sonoridade e os efeitos do instrumento sem nunca parecer técnico."

LUCIANA RABELLO

"Ele foi muito importante, mais para o instrumento. Existe uma polêmica em torno do Waldir, mas não dá pra negar sua importância. Não era estudioso, mas era musical e popular."

MILTON MORI

"Ele foi gênio nas músicas ligeiras e nas lentas, com sua sonoridade inigualável. Gravou outros estilos que na época muitos chorões repudiavam."

ALESSANDRO VALENTE

"Waldir levou a música pra além das fronteiras e trouxe estilos que não eram de origem brasileira para o seu repertório."

DO SUBÚRBIO DO RIO PARA O MUNDO

Brasileirinho

Atendendo ao pedido de um sobrinho pentelho, Waldir compôs o choro ligeiro, primeiro de sua carreira, em 1949, de improviso e em um cavaquinho com apenas uma corda. Maior sucesso de sua carreira, a música pela qual o cavaquinista é conhecido até hoje foi registrada em seu primeiro disco 78 rpm pela Continental, gravadora com a qual seguiria até morrer, em setembro de 1980.

Delicado

O baião, gravado em 1950, foi o grande sucesso de Waldir no exterior. Além de batizar balas e cores de esmalte por aqui e barras de chocolate na França, foi causador do maior espanto do compositor no exterior: em viagem ao Oriente Médio, em pleno deserto, o tema tocava em uma caixinha de música artesanal.

Pedacinhos do Céu

Choro dolente lançado em 1951, composto em homenagem a suas duas filhas. A caçula Marly e Miriam, morta anos depois em um acidente de carro, aos 19 anos. Também foram homenageadas em Nós Três e Uma Saudade.

Carioquinha

Também de 1949, o tema foi gravado no lado B do primeiro 78 rpm de Waldir. Na época, o compositor acreditava que este choro faria mais sucesso do que Brasileirinho.

Vê Se Gostas

No lado oposto de Delicado, era a grande aposta de Waldir. O baião estourou, provando que o músico era péssimo em previsões.

Pisa Mansinho

Na gravação original, destaque para o trombone do grande Norato, da Orquestra Tabajara, do maestro Severino Araújo.

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