E TUDO COMEÇOU COM TERNO E GRAVATA

Durante décadas, o jazz se fez com roupagem e conduta sóbrias, a maior parte do tempo de terno e gravata, uniforme das big bands - as crooners de vestido longo. A roupa contava pouco nas bandas que marchavam pelas ruas de New Orleans, em paradas, enterros e piqueniques, ou tocavam à noite em bailes em espeluncas. Já os pianistas de bordel, com emprego garantido nas "casas" de Storyville - o maior parque de diversões sexuais do mundo - eram verdadeiros dândis. Ferdinand Joseph LaMenthe, famoso com o nome de Jelly Roll Morton, descreve os requintes da fatiota dos chamados professores: "Usavam um blazer azul e uma calça listrada justa como uma salsicha, nem dava para fechar o botão superior, presas a suspensórios berrantes, desnecessários, tão justa era a calça, um lado do suspensório sempre caindo solto para fora. A camisa aberta exibia uma camiseta de flanela vermelha. Caminhavam naquela ginga molenga aprendido à beira do rio. Eu morreria se não tivesse um chapéu Stetson na cabeça e sapatos feitos sob medida, com sola de cortiça e desenhos na ponta, onde muitos botavam pequenas lâmpadas elétricas, que faziam piscar com uma bateria escondida no bolso. Com a ponta do sapato piscando, aqueles bambas fisgavam a dona que quisessem...".

ROBERTO MUGGIATI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2012 | 02h07

A crise econômica empurrou o jazz para o Norte nos roaring twenties da Lei Seca. Os gângsteres de Chicago adoravam jazz e músicos vestidos a rigor. Uma vez, Louis Armstrong, sob a mira de revólveres, foi abduzido de uma boate e levado a Al Capone para um recital particular. Agradou tanto que saiu com um maço de verdinhas na mão. Os brancos que imitavam o jazz negro em Chicago e Nova York também tocavam de smoking e black-tie, como a Orquestra de Paul Whiteman e seu famoso cornetista Bix Beiderbecke.

Orquestras brancas e negras da Era do Swing apresentavam-se de terno e gravata; com versões mais caprichadas em cetim quando filmavam para Hollywood. (O elegante Ellington foi celebrizado numa foto com fraque e cartola.) O individualista Lester Young deixou sua marca com um tipo especial de chapéu, o porkpie hat. Era a contrapartida da gardênia nos cabelos de sua parceira musical Billie Holiday.

Uma extravagância foram os ternos largões de Cab Calloway, seguindo a moda dos zoot suiters dos anos 1940, lançada por jovens chicanos de Los Angeles e tão espalhafatosa que provocou a hostilidade de marinheiros e conflitos nas ruas com várias mortes.

O bebop revolucionou o jazz no pós-guerra, mas os ternos continuaram. Charlie Parker tocava sempre com um elegante jaquetão risca de giz. Dizzy Gillespie e Thelonious Monk arrojavam nos cavanhaques e nos chapéus. Monk, além, das boinas bascas, gorros de astracã, chapkas russos e tamboretes turcos, começou a colecionar óculos exóticos, usando raybans à noite. Veio então a elegância cool de Chet Baker, os colarinhos e gravatas de Mr. B (Billy Eckstyne) e os ternos italianos de Miles Davis, cuja esbelteza combinava com suas (também italianas) Ferraris.

O próprio Miles liderou a fusão com o rock em roupa e som. Lembro seu show maluco em 1974 no Municipal do Rio, com um bando de hippies em camisetas desbotadas e jeans esfarrapados. O Grande Desbum fashionista foi completado por Raahsan Roland Kirk e por Sun Ra e sua Solar Arkestra - Ra paramentado, entre outras extravagâncias, com coloridas plumagens de um chefe indígena.

Os Young Lions dos anos 1980 trouxeram a ordem de volta à música e à vestimenta. Acompanhei de perto o duelo de egos no Rio em 1986 entre Wynton Marsalis (tocava no Free Jazz) e Miles Davis (apresentava-se no Canecão). A Sony passara a privilegiar Marsalis em detrimento de Miles. Miles pediu as contas e assinou com a Warner. Miles apunhalou: "Quem é esse jovem metido a tocar jazz num terninho Armani?". Wynton contra-atacou: "Quem é esse hippie velho ridículo querendo fazer jazz com músicas de Michael Jackson?".

Tudo bem, Stanley Jordan, hoje vale tudo. O jazz está nu: a música conta muito mais do que a roupa.

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