É trouxa

Todavia, o restante da família lusitana do rapaz era bastante religioso

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2018 | 02h00

Ela, ao chegar com suas duas malas para viver em Portugal, já sabia que os portugueses, em sua imensa maioria, eram católicos. Alguns deles, católicos fervorosos. E ela, aquela tradicional mistura brasileira, uma avó católica, um avô judeu, uma avó líder de centro espírita. Quando questionada acerca de temas religiosas, limitava-se a dizer que tinha fé em Deus e pronto, sem definições mais profundas.

Casou-se com um português cujos pais não davam muita bola para igreja, para seu profundo alívio. Não houve qualquer polêmica sobre haver apenas um casamento civil e uma grande festa, sem padre, rabino, pastor ou qualquer outro interlocutor para pedir a bênção dos céus. A bênção vinha dos pais. Era o que bastava para eles.

Todavia, o restante da família lusitana do rapaz era bastante religioso. Frequentavam a missa, batizavam as crianças, colocavam-nas na primeira comunhão e na crisma. E davam-se todos muito bem com ela, eram gentis, aceitavam-na bem apesar das diferenças. 

Até que aconteceu. Era um almoço em um sábado de dezembro, num elegante restaurante de hotel. Acomodaram-se, os quase dez, ao redor de uma mesa redonda, ela ficou ao lado direito do marido e à sua direita estava a Tia. À direita da Tia, a outra Tia. Essas duas tias eram as mais católicas de todos – eram também as mais carinhosas da família.

O menu incluía a entrada, o prato principal, o vinho e a sobremesa. Ela escolheu o pato. Nunca imaginou que gostaria de pato, mas Portugal fez isso com ela. Todos comeram bem e conversaram alegremente sobre amenidades. Falaram sobre como o início do inverno estava agradável, sem que as temperaturas despencassem de forma violenta. Também comentaram sobre o quão cheios andavam os centros comerciais por conta das compras de Natal.

Era exatamente desse assunto que ela queria desviar. Porque ela sabia que dali a poucos instantes o menino Jesus entraria na conversa e, dali, era um pulinho para que o catolicismo todo entrasse em cena. Foi o que aconteceu. O tópico “consumismo no Natal” puxou o tópico “o verdadeiro espírito do Natal” que puxou o catolicismo inteiro para cima da mesa.

Ela limitava-se a sorrir e dizer que concordava, que Natal não deveria ser assim, que Jesus não gostaria nada da forma como conduzimos as coisas. Conforme o carrinho com as sobremesas se aproximava, o assunto foi se dissipando. Não há tema que vença o poder do açúcar. Mas assim que o carrinho estacionou ao lado da mesa, a tia fez a leve pergunta: “Você acredita em Deus?”.

Assustada e tentando gerir a situação, ela diz para o marido “escolhe algum doce pra mim”. Respira fundo, vira-se para as tias e diz: “Sim, tenho muita fé em Deus. Faço as minhas orações, agradeço meus dias. Eu só não frequento a igreja. Mas, sim, acredito muito em Deus”. Enquanto o garçom colocava a sobremesa na frente dela, ela aguardava o veredicto das tias sobre seu discurso.

Foi quando uma das tias disse abruptamente: “É trouxa?”. Ela gelou. Por pior que imaginasse que poderia ser a reação das tias, jamais imaginou uma agressão vinda daquelas senhoras de 70 e poucos anos e ar muito distinto. Ficou em silêncio. A tia que estava ao seu lado repetiu “É trouxa?”. Ela não sabia como reagir. Viu toda a sua relação com a família ficar estremecida naquele momento.

Seu marido olhava para ela sem entender sua reação. As tias aguardavam sua resposta com um ar sereno, quase simpático, depois de tamanha grosseria. O marido não esboçava nenhum ato em sua defesa. Ninguém na mesa parecia incomodado com a situação. 

Até que, finalmente, a tia esticou o braço na direção dela e apontou para o prato: “É trouxa de ovos?”. Foi inundada por um alívio inédito. Suspirou. Agradeceu a Deus e respondeu, segura: “Não sei, mas a senhora fique à vontade para provar”.

Mais conteúdo sobre:
Portugal [Europa]

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.