Gracia Lam/The New York Times
Gracia Lam/The New York Times

É tempo para cuidar bem de todos

Diante da atual situação, de isolamento e pandemia, empresas e organizações que mantiverem olhar cuidadoso para suas pessoas triunfarão

Mariana Luz, Especial para O Estado de S. Paulo

10 de abril de 2020 | 05h00

No enfrentamento de crises é absolutamente necessário se repensar tudo: as estratégias, as metas, os cronogramas, as bases de negociação. É a hora dos planos de contingência e mapas de risco, da definição do modus operandi emergencial, da sala de guerra, do alerta vermelho.

Mas é a hora, também, de solidificar valores e reforçar práticas humanizadas. É nos momentos de crise que se revelam verdades individuais, corporativas e da sociedade como um todo. Nas últimas três décadas, ganhou proeminência o conceito de que as pessoas são o maior ativo de uma corporação. Pois agora vivemos uma excelente oportunidade de provar que, na sua empresa e organização, este discurso é vivido com ênfase.

Não se trata em absoluto de sugerir quaisquer esforços que eventualmente desencadeiem em falências de negócios. Ao contrário, pois isso acarretaria severas implicações que demandariam ainda mais tempo para a recuperação econômica. Argumenta-se, no entanto, que, sim, essa crise sem precedentes e que vem se estabelecendo como o maior desafio humanitário da nossa geração requer lideranças com coragem de assumir mais riscos em prol da manutenção do emprego e do bem-estar das famílias.

Cuidar das pessoas – lembremos – não é apenas cuidar do ambiente de trabalho. É preocupar-se com seu florescimento pessoal e profissional, bem como seu estado de saúde emocional e físico. Além de fundamental para o engajamento e produtividade dos colaboradores, isso está completamente ligado a ter políticas de apoio às crianças e à família. Inúmeras pesquisas demonstram que essa atitude em relação aos funcionários é moralmente superior, e também rende resultados positivos, por meio de uma força de trabalho mais dedicada, mais feliz, mais criativa, mais eficiente.

Não há dúvida de que, numa crise como a que vivemos agora, o simples fato de pertencer a uma organização produtiva formal já é um privilégio e tanto – não só pela garantia de renda, também pelo plano de saúde e outros benefícios. A camada de pessoas em situação de vulnerabilidade, que vivem do trabalho informal, é imensa e os impactos negativos, para quem está nela, são muito maiores. Esta deve ser, portanto, uma preocupação essencial de qualquer empresa cidadã: manter, acelerar ou iniciar ações que contribuam para minimizar os danos à população mais carente.

Isso, no entanto, não torna menos essenciais os cuidados da empresa com seus funcionários. É fato que a mera manutenção da força de trabalho, ante os enormes desafios que as empresas enfrentam, já reverterá em ganho de imagem (empregos, neste momento, devem ser a última coisa a cortar). Mas essa está longe de ser a única providência a tomar.

Assim como é fundamental reavaliar os contratos, a logística e as planilhas de custos, é imperativo revisitar as políticas de trabalho, especialmente para quem tem filhos. Se flexibilidade já era um atributo muito valorizado, ela agora é essencial. Uma coisa é fazer home office em tempos normais, quando as crianças estão na escola ou os pais têm o apoio de babás, empregadas ou dos avós. Outra coisa é trabalhar num cenário de aumento exponencial da demanda por atenção.

Para a empresa, o desafio não é menor: uma coisa é ter uma ou duas pessoas alternando-se em regime de flexibilidade; outra, bem diferente, é ter a equipe inteira reunida em espaço virtual. Trata-se, talvez, de um aprendizado forçado para um futuro de trabalho cada vez mais flexível.

Também é a hora de reforçar a comunicação em prol da família. As pessoas estão aflitas em busca de informações, e as empresas têm condições de fornecê-las com canais específicos ou com reforço dos meios já existentes. É hora de adaptar rotinas e oferecer orientações não só para os funcionários que têm filhos, mas para aqueles que os chefiam.

Uma das recomendações da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal é que as empresas facilitem as visitas das crianças aos pais no trabalho. Isso, obviamente, não é possível agora. Mas é um bom momento para fazer o contrário: levar um pouco da empresa para as crianças, com informações ou mesmo contato virtual.

Outra recomendação, em tempos “normais”, é engajar-se em ações na comunidade. Isso é ainda mais crucial em tempos de pandemia, por meio do levantamento das necessidades dessas comunidades e doações, por exemplo. Da mesma forma, o exercício da influência da empresa para defender a causa da primeira infância é ainda mais urgente.

E voltando a falar sobre a relação das organizações com seus colaboradores nesse momento, cabe aqui trazer o exemplo de algumas empresas que têm convidado seus colaboradores a repensar seus eventos virtuais. A reunião online que estamos agendando é mesmo necessária neste momento ou estamos apenas reproduzindo o que fazíamos no cotidiano normal, sem refletir sobre o fato de que todos nós estamos num contexto diferente?

Cada empresa pode e deve pensar em como simplificar seus processos para apoiar seus profissionais e suas famílias. Seria possível, por exemplo, organizar uma campanha de vacinação para funcionários e filhos com horário marcado para evitar aglomerações? Evitar uma reunião, prover um serviço, cada ação de cuidado e acolhimento neste momento conta.

Ante uma ameaça tão grande para a nossa saúde, é tempo de acolher os funcionários. E, mais ainda, aqueles que os funcionários mais prezam: suas crianças.

A pandemia vai passar. E, quando estivermos em condições de iniciar a retomada, vamos precisar de mais energia, mais engajamento, mais senso de propósito – misturados aos aprendizados desses dias difíceis e cheios de incertezas, mas com convites diários ao autoconhecimento e à reavaliação do que fazemos e por que fazemos. Só assim vamos retornar com alguma agilidade, e com um novo olhar, aos níveis de atividade e crescimento de que as pessoas e o país precisam. Essa energia, esse engajamento, esse propósito, é preciso começar a ser construído agora.

MARIANA LUZ É CEO DA FUNDAÇÃO MARIA CECILIA SOUTO VIDIGAL

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