REUTERS/Guglielmo Mangiapane
REUTERS/Guglielmo Mangiapane

É tempo de lives. E isso vale a pena?

Por que precisamos tanto nos expor e compartilhar em nossas redes sociais tudo o que pensam

Alice Ferraz/Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

19 de abril de 2020 | 03h00

Vinte e um dias em casa. Depois de passar por sentimentos como excitação, tristeza, altos e baixos, cheguei à resignação e, finalmente, à resistência.

Resolvi resistir. Resistir a tal angústia e a euforia ao pensar no que fazer quando a pandemia acabar. Resistir à minha mente tagarela que passa os dias tentando me convencer de que sairemos dessa melhores, diferentes. Não quero mais ilusões. Quero ser positiva, mas enxergar a verdade, pois ela nos guia por caminhos mais seguros.

A verdade tem me dito por meio das dezenas de lives que passam pela minha timeline que, claro, somos os mesmos e nenhum passe de mágica faria com que mudássemos em um mês. Mas o assunto aqui é #livedemia e por que precisamos tanto nos expor e compartilhar em nossas redes sociais tudo o que pensamos ou não sobre todos os assuntos que entendemos (ou não!). Colocamos nossa opinião no centro do interesse mundial.

O mundo está assistindo às lives diariamente, mas, o Brasil, com certeza, vai provar que somos nós os que mais fazem e consomem no mundo. Sempre digo que a vontade de se comunicar que o brasileiro tem nos fez campeões das mídias sociais, compartilhamentos e tudo o que isso nos traz de bom e de ruim.

Gostamos de falar de tudo e opinar sobre tudo também. Um comportamento autoerótico, como dizem os psicólogos junguianos, que faz com que só vejamos a nós mesmos em qualquer situação. E assim, mal o “dono” da live contou sua história, a outra ponta da live já está dizendo “comigo aconteceu o seguinte...”. Um sem fim de “eu acho, eu vejo, eu acredito”. Sem ouvir ou refletir sobre a história do outro, passamos a olhar novamente para nossa narrativa própria e, sim, seguimos tagarelando unidos aos comentários que aparecem como uma torrente. Ou você fala, ou responde, ou escuta. Como fazer tudo ao mesmo tempo e ainda produzir algum conteúdo de qualidade?

Quando as primeiras lives começaram a aparecer, pensei: vamos compartilhar nossos melhores conhecimentos! Cada uma contando o que sabe, mas sabe mesmo e, assim, criaremos uma rede de pequenos “sabes”, que se tornaria talvez o maior circuito de aprendizado da história. Estava eufórica para ouvir e aprender. Cantores cantariam, professores de cabala ensinariam cabala, de gastronomia ensinariam pratos, pessoas de moda falariam de moda, e assim por diante. Afinal, será que foi para isso que lives foram desenvolvidas pelo criador do Instagram? Para compartilhar conhecimento? 

Mas não foi isso o que aconteceu. Nossa profunda vontade de falar sobre tudo e ter opinião sobre o que não sabemos nos levou a lives de gastronomia por quem nunca entrou em uma cozinha, aulas de yoga por aprendizes e conversas que parecem ter sido tiradas de um uma bate-papo informal e aleatório, com o agravante de sermos “chamados” com temas.

“Alice, você está amarga”, podem dizer, afinal, são 21 dias em casa. Mas, não, digo que estou sóbria e a sobriedade, na maior parte das vezes, não é divertida. Sóbria quanto à nossa falta de propósito ao desperdiçar esse momento. Estar em casa é um ato de restrição, limitação. Um cuidado conosco e com a sociedade, com o mundo. Estar em casa nesse momento tem um propósito que passa longe do constante entretenimento que se tornou nossas vidas. Seria tempo de se recolher, refletir, ir a fundo nos temas que podem nos ajudar na transformação pessoal que deveríamos começar. 

Acabo este texto com a sensação de que em tempos de #livedemia temos aqui assunto para mais uma live. 

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