É só rock, mas Yeats está nessa

Misticismo do poeta irlandês, que era emocionalmente instável, faz sua obra soar familiar a todo pop star

Graeme Thomson, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

Certo dia, em 2005, Mike Scott montou acampamento na sua sala de música armado com um sonho há muito tempo acalentado, e uma cópia dos poemas mais famosos de William Butler Yeats, uma antologia de obras do poeta falecido. Durante 15 dias, o líder dos Waterboys se debruçou no seu piano e estudou metodicamente o livro, mergulhado em cada verso de cada página do livro, até que surgiu um vislumbre de uma canção.

"Se a primeira frase de cada poema sugeria uma música na minha cabeça, eu insistia nela e, se não resultasse em alguma coisa, eu começava da primeira página e trabalhava até a 600 e alguma coisa, e depois começava novamente no caso de alguma ter sido esquecida. Devo ter feito isso nove ou dez vezes, de maneira a dar a oportunidade para cada frase me inspirar. No fim das primeiras duas semanas eu tinha 10 músicas."

A partir daí, esse número dobrou e o resultado é An Appointment with Mr. Yeats, uma série de concertos (e, segundo seu plano, um álbum gravado em estúdio) em que os Waterboys colocam num novo contexto as palavras do mais venerado poeta da Irlanda, que entraram assim na música de rock.

Scott é formado em Yeats: em 1986, ele já tinha inserido The Four Ages of Man nos sets ao vivo do Waterboys e mais tarde gravou The Stolen Child for Fisherman" Blues e Love and Death for Dream Harder, ambos apresentados no seu novo concerto. No entanto, Scott não é o único vidente do rock fascinado pelo poeta irlandês. Os poemas de Yeats inspiraram inúmeros músicos, incluindo Van Morrison (Crazy Jane on God), Joni Mitchell (Slouching Toward Bethlehem, adaptado de The Second Coming), e Bono (Mad as the Mist and Snow).

Um álbum com uma compilação fragmentada de canções de Yeats, Now and in Time to Be, foi publicado em 1997, apresentando Shane MacGowan, Christy Moore, os Cranberries e, naturalmente, os Waterboys, juntamente com diversos outros intérpretes menos conhecidos. Mesmo Carla Bruni lembrou de Before the World Was Made e Those Dancing Days Are Gone on No Promises, no seu álbum de 2007, que trata as palavras dos grandes poetas como se tivessem sido arrancadas das páginas amarelas.

O que existe em Yeats que atrai tanto os músicos? A sua visão mística e firme, um homem de posições instáveis - era nacionalista, liberal, niilista, radical, um pilar do establishment - de uma maneira familiar para qualquer pop star, mas tem algo mais além disso. "Existe uma profundidade e um peso no seu trabalho que combina com seu maravilhoso ouvido para os sons e as cores das palavras", diz Scott. "Felizmente, ele colocou muitos poemas em métrica e rima, e é isso que sugere a música para mim. Muitos dos poemas que eu trabalhei já tinham ritmo, e muitas das músicas foram compostas rapidamente."

Oportunidade. Scott, que se declara um "arquivista" de adaptações de Yeats, é uma pessoa difícil de se impressionar. Agora e em Time to Be, ele acha que foi "uma oportunidade perdida - foram interpretações excessivamente improvisadas, sem muito esmero", e ele também descarta muitas das centenas de outras músicas baseadas nos versos do poeta. "Acho que o que estou fazendo é muito melhor", diz ele. "Sou um sujeito competitivo." E cita uma dezena de diferentes versões existentes de Song of Wandering Aengus como exemplo. "Muitas são bonitas e refinadas, o que as pessoas consideram ser boa música, mas não é", diz ele. "Com pouquíssimas exceções, todas elas tropeçam no obstáculo mais básico: elas não sugerem que o cantor está com a cabeça em fogo, que é a primeira frase do poema."

Em suas mãos, News for the Delphic Oracle vira uma valsa sinistra, distorcida, que se situa entre Tom Waits e Kurt Weill.

Cantada nos recentes protestos iranianos, Let the Earth Bear Witness - um amálgama de palavras tiradas de poemas como Cathleen Ni Houlihan e The Blood Bond - tornou-se uma canção de protesto com uma ressonância moderna palpável. Mesmo The Lake Isle of Innisfree - "o poema da caixa de chocolate, que todos eles ganharam na escola" - se transforma num blues. "Agora, é uma blasfêmia", ele ri. "Adoro isso. Acho que inserir Yeats no contexto do rock"n"rol e usá-lo em 20 músicas é uma coisa radical. Muda o seu contexto totalmente."

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