É só fechar os olhos

Entre as anedotas, os músicos contam a de Dave Brubeck, que, pelo pai, teria sido um vaqueiro

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2010 | 00h00

O quarteto ataca de Blue Rondo à la Turk , no compasso inusitado de 9/8, e você logo reconhece o piano martelado de Dave Brubeck, o suingue suave do saxofone de Paul Desmond, o baixo andarilho de Eugene Wright, as sutis escovinhas do baterista Joe Morello. Segue-se o lírico e reflexivo Strange Meadow Lark, contrastado pelo ritmo envolvente de Take Five. A ordem dos números obedece, até o final do espetáculo, a sequência das faixas do LP de Brubeck, Time Out, lançado em 1959, um dos discos de jazz de maior aceitação popular, que colocou o compacto de Take Five entre os primeiros nas paradas de sucesso.

Assistimos na Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, ao quarto "show-aula" da série Clássicos do Jazz ao Vivo, produzida em parceira com a Casa do Saber. Se os quatro músicos tivessem levado às últimas consequências este cover de Time Out, usando máscaras personalizadas e ternos escuros, você teria a sensação de estar ouvindo o quarteto original.

Os responsáveis por esta esperta reconstituição musical são o saxofonista Daniel Garcia, a pianista Ana Beatriz Azevedo, seu marido baixista, Lipe Portinho, e o baterista Renato Massa. Entre as "faixas", Ana fala de Dave Brubeck, Daniel conta as histórias de Paul Desmond e até o lacônico Massa comenta sobre Joe Morello, que, aos 82 anos, continua formando novas gerações de bateristas.

Rolam anedotas: Brubeck (hoje com 89 anos) poderia ter sido vaqueiro por influência do pai, mas graças à mãe concertista, começou no piano aos quatro anos; no auge da fama, teve muitos shows cancelados por manter no quarteto um contrabaixista negro, Eugene Wright, ainda ativo aos 87 anos. Paul Desmond, que queria alcançar o "som de um dry martini" no seu sax alto, é o único que não está mais aí: mulherengo e boêmio, deixou o quarteto em 1967 e morreu de câncer dez anos depois, aos 53 anos.

Todas estas informações de bastidor trazem um profundo amor pelo quarteto famoso. Mas, detalhe importante: sem nenhum exclusivismo. Ana-Daniel-Lipe-Renato demonstraram seu talento camaleônico nos "show-aulas" anteriores. Primeiro, fazendo um cover da obra-prima de Miles Davis, Kind of Blue (reconstituída também, no ano passado, na turnê mundial do baterista Jimmy Cobb, o único músico sobrevivente das sessões de 1959). Depois, reencenando o álbum que marcou uma virada na carreira do saxofonista John Coltrane, Giant Steps, lançado em 1960. Veio a seguir o tributo ao LP de Wayne Shorter Speak No Evil, lançado em 1965, e a maratona terminou nesta qurta-feira, 14 de julho, com Song For My Father, de Horace Silver, gravado em 1963.

Há uma curiosa concentração de tempo-e-espaço nestes cinco registros históricos: eles foram gravados entre 1959 e 1964, no eixo Nova York-New Jersey: Kind of Blue e Time Out no mesmo endereço da Rua 30 em Nova York - uma antiga igreja armênia transformada em estúdio pela Columbia; Giant Steps no estúdio da Atlantic em NY; e Speak No Evil e Song For My Father nos estúdios de Rudy Van Gelder em Nova Jersey. Na minha opinião, ficou faltando nesta série apenas outro álbum clássico de 1959, gravado também no estúdio da Columbia de Nova York: Mingus Ah Hum. É uma aula magistral, o cover dos covers, com seus tributos ao boogie-woogie, a Jelly Roll Morton, Duke Ellington, Charlie Parker e Lester Young (Goodbye Pork Pie Hat, "coberto" por dezenas de músicos de jazz e do rock) e o Self-Portrait in Three Colors. Quem sabe ouviremos Mingus Ah Hum numa próxima "edição extra" dos Clássicos do Jazz? Afinal, no último fim de semana de junho rolou na Sala Baden Powell um tributo a John Coltrane - que desde sua morte, em 1967, aos 44 anos, foi canonizado por milhares de fãs espalhados pelo mundo. Se você ainda duvida da santidade do velho Trane, visite a Igreja Ortodoxa Africana Saint John Coltrane no nº 1286 da Fillmore Street, São Francisco, Califórnia. Nem Mozart, Beethoven ou Stravinsky chegaram a tanto. Esta é a força dos clássicos do jazz...

ROBERTO MUGGIATI É ESCRITOR, TRADUTOR E PESQUISADOR MUSICAL AUTOR DO LIVRO IMPROVISANDO SOLUÇÕES

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