É só ajustar o foco

Os artistas já sabem: música sem clipe pode ser boa, mas com clipe fica muito melhor. E a imagem passa a ter o mesmo peso que o som

Antonio Duarte, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2010 | 00h00

A banda McFly faz um show em uma casa noturna de São Paulo e, de repente, cinco mil pessoas aparecem ali na condição de súditos, como se caídas de outra dimensão. E o que tem essa McFly para tal feito se ainda não apareceu no Faustão e não tem música na novela das 8? O voo do McFly começa na mesma pista de decolagem de uma geração que já sabe: uma música sem imagem pode até ser boa, mas uma música com imagem pode ficar mil vezes melhor.

Depois de mudar o comportamento dos jovens que consumiam rock nos anos 90, com a chegada da MTV, o clipe (falar videoclipe é coisa de tiozinho) ganha poder a ponto de determinar quem é e quem não é um bom músico. Cruel, mas tem sido assim. É o decreto do "não basta ser, tem de parecer que é". "Um bom exemplo é a Lady Gaga. As músicas dela são toscas, mas os vídeos que faz são tão incríveis que chegam a convencer de que a música também é boa", diz o músico paulistano Thiago Pethit.

Pethit, avaliado pela crítica como um talento que dispensaria imagens, não dispensa nada. Suas músicas Não Se Vá e Fuga Nº1 ganharam clipes produzidos pelo site Música de Bolso, que já colocou 250 vídeos de 128 artistas acessados mais de 1,2 milhão vezes. Suas produções também vão parar no YouTube, onde alguns vídeos passam de 50 mil exibições. "Sem a internet nosso projeto não existiria. Não é à toa que não fazíamos isso há dez anos", diz Rafael Gomes, do Música de Bolso.

Os tempos evoluíram e os clipes, por vontade própria, regrediram. As produções são muitas vezes feitas em casa, em gravações amadoras de apresentações ao vivo e muitos teasers (vídeos curtos que divulgam um evento ou CD). O fã não se importa mais com luxo, mas com a naturalidade do artista. E assim surgem as Mallus Magalhães dos novos tempos. "Isso muda a relação do público com a música", diz Thiago.

A cantora Tiê é exemplo de até onde um artista pode chegar com seu vídeo. "Segui um caminho oposto. A gravadora viu o sucesso que eu fazia na internet e resolveu lançar meu disco."

Com os vídeos que gravou para o Música de Bolso, Tiê já foi convidada para tocar no festival Latinoamericana: Música para la Integración, no Uruguai, em 2009.

"Sou superprogressista nesse sentido", diz Juliana Kehl, outra cantora que tem se beneficiado do sucesso à base de música e muita imagem. Ela começou postando registros de shows e ensaios no YouTube e, como também é artista plástica, produziu dois teasers com desenhos animados. "Sou muito seletiva com os registros do meu trabalho. A imagem completa o som em alguns casos e traz um outro colorido."

O recém-lançado Efêmera, primeiro disco de Tulipa Ruiz, é parte de uma extensa produção na web. Até o nome do disco é uma referência à fugacidade da música em tempos de internet, download e compartilhamento. "Quanto melhor e mais compartilhável, mais eficaz o vídeo", diz a cantora. Seus clipes, em geral, são produzidos pelo irmão, o músico e produtor Gustavo Ruiz. "É uma coisa relativamente nova para mim", diz ele. "Comecei a brincar com edição de vídeo e percebi que tinha a ver com edição de áudio: em ambos, é preciso ter ritmo."

Outros dois irmãos também têm feito uma dobradinha interessante: Leo e Nina Cavalcanti, filhos do compositor Péricles Cavalcanti. Ela é formada em cinema e já trabalhou com produção musical. Hoje, se dedica a fazer clipes e registros de artistas. Aproveita a experiência profissional para filmar a evolução do irmão, Leo Cavalcanti, neste início de carreira como cantor e compositor. "É natural filmar o Leo. Não foi uma coisa pensada, oficial. Acabei fazendo grande parte dos vídeos dele porque somos próximos", explica Nina.

"Hoje não existe música dissociada de imagem e um vídeo pode ser lindo também pela tosquidão do formato." Os registros de Leo, que lançará o primeiro disco, Religar, no segundo semestre, são feitos em casa e, eventualmente, recebem pequenas intervenções posteriores. Um exemplo é o clipe da música Chuvarada, composta por Leo em parceria com Tatá Aeroplano. "Minha relação com a música já se formou nesse contexto. Não penso música para colocar na internet, é como se eu fizesse na internet", diz Leo. "Mas é, ainda, um começo de relação que deve se expandir."

O jovem cantor prepara uma estratégia que contemplará fundamentalmente a internet para o lançamento de Religar. "Quero lançar o clipe de Ouvidos ao Mistério um pouco antes do lançamento do disco, para dar início à divulgação", diz. "Vou lançar o disco e faixas bônus para serem baixadas na internet."

Com estruturas mais enxutas e a baixa na venda de CDs, a indústria de discos tenta se apropriar da internet da maneira que pode. "Os vídeos ajudam muito, é uma ótima ferramenta de marketing", diz Rick Bonadio, da Arsenal Music. Segundo ele, as bandas produzidas pela gravadora se utilizam do meio eletrônico para promover o disco, apresentações e para se aproximarem dos fãs. "Temos um canal no YouTube onde colocamos teasers e web clipes das novas bandas. Um exemplo de sucesso nosso é a banda Vowe." O clipe da música Simples Assim, de fato, é um sucesso. E pode-se entender por isso 33 mil visualizações em dois meses de exposição - audiência em parte explicada pela público jovem da banda, altamente familiarizado às ferramentas da web 2.0.

Um alto número de visualizações pode render dividendos. "Estamos falando de uma coisa vinda completamente da internet que levou cinco mil pessoas ao Via Funchal e lotou o lugar", diz Anna Butler, ex-diretora artística da MTV e sócia da produtora Conteúdo Musical, referindo-se à banda McFly, que ganhou popularidade entre o público adolescente pela rede mundial de computadores. "Foi um fenômeno típico de internet."

Seria o fim dos clipes para a TV? "Hoje, com uma câmera caseira, você faz o próprio clipe, edita e coloca na rede. Se faz um clipe pelos meio tradicionais e manda para a TV, ele é exibido uma vez, num programa específico", diz Alê Briganti, sócia de Anna na Conteúdo Musical. "Vi essa revolução acontecer e sou super entusiasta. Mas ninguém sabe como isso vai ser, a indústria não sabe ainda como ganhar dinheiro com isso."

O que hoje pode soar como um problema para a indústria fonográfica está criando uma nova maneira de se fazer e promover música. "Os elementos da arte estão se fundindo e a internet é o espaço para isso", diz Leo Cavalcanti.

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