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E se eu morrer?

Não me esqueço da agonia que se manifestava na véspera das minhas viagens de campo

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 03h00

Tal como na psicanálise, na antropologia social ou cultural seus aprendizes são forçados a provar o seu próprio remédio (ou veneno). Em ambas as disciplinas, o aprendizado implica um ambíguo e arriscado trabalho que consiste no fato de o aprendiz viver com o investigado com o intuito de compreendê-lo: de sentir e pensar como ele.

No caso da psicanálise, ocorre a submissão a uma prototípica análise didática na qual o futuro médico torna-se paciente; ou melhor: aceita-se como um doente, pois descobre e aprende que a doença (essa diferenciação extremada) ensina. Já nas antropologias, o observador é obrigado a sair do seu costumeiro e “civilizado” gabinete e sala de aula para morar com os selvagens — com os “índios” –, como se diz no Brasil.

O futuro psicanalista (cuja imago é aquela impactante fotografaria de Freud feita por Max Halberstad) vira um decifrador de compulsões e manias; o aprendiz de antropólogo experimenta línguas e costumes exóticos. Suas subjetividades viram laboratórios e eles entram em contato com a sua fragilidade e a sua ignorância, num processo árduo e arriscado, revelador das contradições e angústias sem as quais não se compreende o diferente. Como prêmio, eles aprendem o poder das diferenças lidas como alternativas e não como enfermidades ou primitivismos. 

A prova do remédio antes de tomá-lo é mais comum do que pensamos e certamente ocorre em qualquer aprendizado, mas nestas duas profissões o trocar de lado talvez seja mais profundo e marcante. Que leitor não tome minhas palavras biblicamente, mas como uma ilustração.

*

Não me esqueço da agonia que se manifestava na véspera das minhas viagens de campo. Sair de casa para depois de alguns dias ou semanas, deitar-se numa rede com a intenção de se entregar ao sono (esse avatar da morte) num lugar remoto, numa palhoça sem paredes e como um intruso, longe do conforto e do carinho dos familiares, era o que me fustigava. Será que eu seria capaz de cumprir a tarefa exigida pelo aprendizado?

Pesquisei o que havia sobre os “meus” nativos, mas na hora de conhecê-los em carne e osso surgia dentro de mim uma enorme insegurança. Um fato que eu – nascido e criado num sistema no qual o maior castigo é a ausência de ficar longe dos seus – jamais havia me dado conta. Como, pois, transformar castigo em aprendizado profissional? 

Curiosa profissão essa que me obrigava a viver com selvagens sem roupa e hora certa para comer; para não mencionar a ausência de escrita e de registros de sua língua ou história. E passar ao largo do agressivo preconceito contra os nativos que tornava o projeto ainda mais anormal: como é que uma pessoa “fina” como o senhor – ouvi inúmeras vezes – vai viver com aqueles brutos? 

Não se pode ser antropólogo sem ter feito um trabalho de campo e realizado essa cisão consciente entre sua vida e as vidas alheias que, sem censura ou julgamento, deveriam ser observadas e trazidas de volta para interrogar o nosso estabelecido modo de se viver...

*

Um jovem aprendiz pensava em tudo isso na noite anterior de sua partida do Rio para Belo Horizonte e, dali, para Goiânia, a ponte para uma desconhecida Marabá; por sua vez, a base para seguir para uma Itupiranga de onde, depois de um dia e uma noite a pé, dentro de uma Amazônia até hoje possuída por grileiros, chegava-se, devidamente grilado, à aldeia do povo a ser estudado. O curioso é que ele jamais pensou nos riscos concretos de ser picado por uma cobra ou sofrer um acidente. Sua onipotência o contemplou com uma malária. 

Em meio ao oceano de ansiedade, surgia o que levar – cadernos de campo, filmes, bife enlatado e pilhas para lanterna – e, ao lado disso, algumas questões graves e reais: levo facão ou revólver? 

Vendo sua agonia, a mulher largou a limpeza e os filhinhos para acalmá-lo. 

– Querido, tudo vai dar certo. Por que te atormentas tanto? As situações criam seus consolos. Você vai suportar esse teste e vai realizar um bom trabalho. 

As palavras fazem coisas. Mas não há nada como o real para liquidar fantasias e terrores.

– Mas e se eu morrer, o que vai ser das crianças? Apelou o aprendiz como um último recurso, num soluço desesperado.

– Se você morrer não se preocupe. Elas são pequenas e vão te esquecer...

Ele seguiu, fez o trabalho, ficou mais velho do que esperava e hoje conta essa anedota como um alento para os tempos de ansiedade e morte que não merecemos viver. 

*

Tempos no quais um presidente destrambelhado rompe compulsivamente com rotinas institucionais e convoca incertezas. Esses avatares dos golpes.

É ANTROPÓLOGO SOCIAL E ESCRITOR, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

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