Mauro Pimentel/AFP
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‘É preciso resistir’, diz Gilberto Gil, o novo imortal da Academia Brasileira de Letras

A posse foi realizada nesta sexta-feira, 8, no Rio de Janeiro; Durante o discurso da cerimônia, o artista defendeu uma literatura antirracista e plural

Jayanne Rodrigues, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 02h42

A cadeira número 20 da Academia Brasileira de Letras foi ocupada nesta sexta-feira, 8, pelo cantor, compositor e escritor Gilberto Gil. Ele foi eleito com 21 dos 34 votos dos acadêmicos, em novembro de 2021. “Poucas vezes na nossa história republicana o escritor, o artista, o produtor de cultura, foram tão hostilizados e depreciados como agora”, afirmou Gil durante a solenidade, realizada no Petit Trianon, Rio de Janeiro. A atriz Fernanda Montenegro, empossada na ABL em março deste ano, foi a responsável pela aposição do colar. 

“Não só porque a ABL é a casa de Machado de Assis, escritor universal, afrodescendente como eu, mas também porque a ABL representa a instância maior, que legitima e consagra, de forma perene, a atividade de um escritor ou criador de cultura em nosso país”. Foi assim que o músico iniciou o discurso na cerimônia de posse. Em sua fala, Gil defendeu uma escrita antirracista e menos elitista, citou escritores brasileiros como o cearense José de Alencar e o carioca Antonio Candido. Além de reforçar a importância da música popular brasileira para o fortalecimento da cultura do País. 

Para uma literatura de aproximação e acessível, Gil reforçou a necessidade de cair no esquecimento o “complexo de inferioridade nacional que só reconhece valor no estrangeiro”. Ele relembrou papéis desenvolvidos não só na área cultural, mas também no meio político. Entre 2003 e 2008, o músico foi ministro da Cultura na gestão Lula.

O baiano ainda resgatou a história pessoal de sua família. “Sou filho de uma professora primária e um médico. A eles devo o meu amor às letras e à música. A imagem dos meus pais está comigo nessa noite e sua memória para mim é uma benção”, disse emocionado. Ele citou a dor de perder um filho, Pedro Gil, que faleceu em 1990. “Mas não desanimo, porque é preciso resistir, sempre”. Na sequência, agradeceu o apoio e finalizou o discurso dando uma paleta da música ‘Luar’. “Se a noite inventa a escuridão, a luz inventa o luar, o olho da vida inventa a visão, doce clarão sobre o mar”, cantou timidamente. “Essa é nossa aposta na vida e na alegria”, resumiu. 

Em sua conta oficial no Twitter, o artista evocou a capa do segundo LP. “Apareço envergando um fardão e usando pincenê”, escreveu ao descrever o figurino que vestia, uma espécie de comparação com a vestimenta dos membros da ABL. Para esta situação, ele escreveu um poema e compartilhou nas redes.

“Um amigo lembrou-me outro dia, que as ironias sempre trazem seu revés. Papéis trocados, eis aqui, vida vadia: fardão custoso, bordado a ouro, vistoso, me revestindo da cabeça aos pés”, narrou alguns versos. 

Gilberto Gil emerge de terras baianas. Nascido em Salvador no dia 26 de junho de 1942, ele foi um dos representantes do movimento Tropicália, que efervesceu a música brasileira em meados da década de 1960. 

A trajetória musical abarca ao menos 60 discos e cerca de 4 milhões de cópias vendidas. Entre eles: "Gilberto Gil" (1969), "Expresso 2222" (1972) e "Refazenda" (1977). Álbuns considerados importantes para a ascensão da bossa nova. Veja a solenidade completa: 

O artista não tem livro publicado, no entanto, teve 400 de suas músicas reunidas na obra ‘Todas as Letras’. Antes, a cadeira de nº 20, era ocupada pelo jornalista e advogado Murilo Melo Filho, que morreu em maio de 2020. Já passaram por ela: Múcio Leão, Emílio de Meneses, Humberto de Campos e Aurélio de Lyra Tavares.  

 

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