''É Preciso Perturbar o Mam, Que É Precioso''

José Bechara transformou o museu em imenso ateliê para a mostra Fendas

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2010 | 00h00

O ateliê, no bairro de Santa Teresa, não perdeu sua importância. Mas é no espaço monumental do Museu de Arte Moderna, onde abrirá mostra hoje (para convidados; amanhã, para o público), que José Bechara deu vida a metade das obras expostas.

"Para mim, e para um grupo de artistas que são afetados pela arquitetura, é importante que o espaço museológico desafie", ele justificava, semana passada, em meio à montagem de Fendas, iniciada há quase três semanas. "A experiência me fez adotar essa estratégia: já que vou sofrer o efeito da arquitetura do MAM, vim fazer aqui. O museu virou ateliê. É preciso perturbar este espaço, que é precioso."

Com uma trajetória que está completando 20 anos, o artista plástico carioca, tendo ao lado o curador Luiz Camillo Osório, não buscou uma retrospectiva, embora estejam ali trabalhos de 1991, quando ele começou a pintar, e de 1998, época em que os volumes começaram a aparecer nos quadros - as esculturas viriam a partir de 2002, com o projeto A Casa, realizado no Paraná, que aparece na exposição do MAM em fotografias.

Trata-se de "uma antologia de meio de carreira", como coloca Osório, que busca traçar um panorama de seus movimentos entre "serialidade e singularidade, entre o dentro e o fora, entre a escala (monumental) e o afeto (íntimo)".

O diálogo entre o percurso traçado nos anos 90 e 00 e as obras recém-feitas está no ar. E a conversa se estende ainda à Lurixs, galeria de Botafogo dedicada à arte contemporânea, onde na sexta-feira será aberta a mostra paralela Ultramar 11 Cabeças, com pinturas e desenhos inéditos, deste ano, em que Bechara usou oxidação de aço sobre papel.

No MAM, a obra mais impactante é Run, composta por mesas de jantar de chapas de compensado dispostas de maneira não-linear. Bechara olhava para ela a poucos dias da abertura sem saber ainda como ficaria sua forma final. Isso porque começou a trabalhar nos primeiros desenhos da escultura em 2005.

"Estou olhando para uma obra que não está pronta e já tenho indicações para um próximo trabalho. Minha cabeça está fervendo. Trabalho 24 horas por dia, todos os dias", ele diz, num discurso em que as palavras "abismo" e "risco" surgem várias vezes. "Pra mim, seria muito confortável pegar meus trabalhos que deram certo e trazer pra cá. Tenho atração pelo acidente."

Sem que haja uma proposta de "linha evolutiva" da trajetória de Bechara, ao caminhar pelo espaço monumental o visitante consegue observar os antigos trabalhos ganhando musculatura, com os volumes saltando da tela, a tinta se encrespando. Está lá também a "geometria embaralhada e hesitante" que o artista propõe. E as pinturas, as quais ele nunca abandonou, contrariando o vaticínio de um amigo. Algumas obras, em escalas diferentes, já passaram pela Bienal de São Paulo (de 2002), pela Pinacoteca e pela Europa.

FENDAS

MAM/ RIO. Av. Infante Dom Henrique, 85, (21) 2240 4944. 12h/ 18h (sáb. e dom., 12 h/ 19 h; fecha 2ª). R$ 8. Até 30/1.

ULTRAMAR COM 11 CABEÇAS

Galeria Lurixs. Rua Paulo Barreto 70, (21) 2541-4935. 14h/ 19h (sáb. com agendamento; fecha dom.).

Grátis. Até 30/1.

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