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É preciso parar

É preciso parar de cuspir no chão, de palitar os dentes no fim da refeição, de poder dizer sim e continuar dizendo não. Parar de supervalorizar a roupa das crianças, de esconder cabelos crespos dentro de tranças, de viver com tanta planilha e tão pouca dança.

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2016 | 02h00

É preciso parar de fumar, de ficar meses sem entrar no mar, de ver farol amarelo e acelerar. Parar de eleger candidato errado, de tirar a pele do frango assado, de ouvir muito pop e nenhum fado.

É preciso parar de se constranger por ter filho gay, de achar que as coisas são justas porque estão na lei, de persistir no machismo em 2016. Parar de tomar refrigerante, de achar que marcas caras nos fazem elegantes, de vangloriar o passado “porque bom mesmo era antes”.

É preciso parar de achar que o pai é coadjuvante na vida do filho, que bolo de chocolate é melhor que bolo de milho e que existem métodos que realmente engrossam os cílios. Parar de tomar café como vício, de desistir dos livros no início, de achar que abraço é artifício.

É preciso parar de deixar prato com resto de comida na pia, de nunca retornar as ligações da sua tia, de ler muita notícia e pouquíssima poesia. Parar de dizer que as coisas são top, de ter medo de demonstrar afeto com toque, de colocar muita farinha na massa do gnocchi.

É preciso parar de achar que o vestido define a moça, que o tamanho do braço define a força, que a casa se define por sua louça. Parar de brigar com irmão por causa de herança, de achar que mulher boa é mulher mansa, de negar a beleza de uma charmosa pança.

É preciso parar de viver no futuro, de achar que grafite é sujeira no muro, de achar que o perigo só mora no escuro. Parar de achar que nutella é melhor que doce de leite, que não se confia em quem anda de skate, que a sobremesa pode ser uma caixinha de after eight.

É preciso parar de entrar atrasado nas aulas, de sedar animais dentro de jaulas, de só depois descobrir que aula e jaula só rimam com Paula. Parar de achar que não se dá beijo na empregada, que cadeiras de rodas podem subir escadas, que podemos criticar quem usa roupa amarrotada.

É preciso parar de achar que todo “eu te amo” já está dito, que nariz largo não é bonito, que todo mundo gosta de comer cordeiro e cabrito. É preciso parar de ter tanta certeza, de parabenizar mulheres só pela beleza, de confundir manipulação com destreza.

É preciso parar. Parar. Parar inclusive com essa mania brega de rimar.

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