Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

'É preciso estimular os blocos de carnaval', diz Nabil Bonduki

Para o secretário municipal de Cultura, desfiles de rua devem ser mais bem distribuídos pela cidade

Entrevista com

Nabil Bonduki

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

07 de fevereiro de 2015 | 11h23


O secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, participou nesta sexta (6), do encerramento do Seminário São Paulo - Cena Contemporânea, organizado pela Escola Superior de Artes Celia Helena (ESCH). O evento, que começou no dia 25 de janeiro, teve seis encontros para abordar os rumos do teatro em questões como mecanismos de financiamento, formação de atores e proteção dos teatros de rua.

Em sua fala, Bonduki abordou a regulamentação da Zona Especial de Preservação Cultural - Áreas de Proteção Cultural (ZEPEC-APC) como uma saída para manter os teatros em seus espaços, defendendo-os da especulação imobiliária. Também comentou a criação dos Territórios de Interesse da Cultura e da Paisagem. O primeiro seria um corredor que abrangesse as regiões da Avenida Paulista, Luz, Liberdade e Santa Cecília. "A ideia é criar um território com sinergia entre os espaços culturais", disse, frisando que, no caso, a região ganharia sinalizações e percursos.

Após sua apresentação, o secretário conversou brevemente com o Estado.

Segundo um levantamento feito pela SPTuris, o carnaval de rua vem crescendo consideravelmente na cidade. Você prevê problemas e soluções para isso?

Por um lado, isso é bom. São Paulo sempre foi considerada uma cidade triste no carnaval, túmulo do samba, um discurso até negativo pra cidade. Então, é bom. Por outro lado, temos uma excessiva concentração de blocos em poucas regiões da cidade. Metade dos blocos cadastrados estão em duas subprefeituras: Sé e Pinheiros. Alguns deles muito grandes, não cabendo no espaço em que são montados. Precisamos que a prefeitura, ao cadastrar, interfira um pouco no trajeto, pra evitar, por exemplo, a paralisação de avenidas por onde passam ônibus. Evitar que carros parem nas ruas porque, além de esses veículos atrapalharem o bloco, ligam o som e ficam ali até muito tarde. O negócio é compatibilizar o carnaval com a vida das pessoas, da cidade. E buscar estimular os blocos de toda a cidade. Hoje, 20 subprefeituras têm blocos cadastrados. Não interessa fazer um carnaval pra gente de fora. É um carnaval local. Se a gente puder ter uma cidade que oferece pra sua população aquilo que ela precisa, teremos a melhor cidade. Claro que, uma vez ou outra, alguém vai querer sair de São Paulo durante o carnaval. E quem acaba saindo é a classe média. Ficam aqui 17 milhões de pessoas chupando o dedo, vendo na televisão.

Em entrevistas recentes, você comentou que prevê algumas mudanças na Virada Cultural.

A nossa ideia não é acabar com a Virada, é garantir que ao longo do ano inteiro a gente tenha eventos e possibilidades de atividades artísticas e culturais na cidade toda. Isso inclui o Circuito São Paulo de Cultura, que promove uma quantidade enorme de eventos nos equipamentos municipais. Temos, hoje, cerca de 150 equipamentos espalhados pela cidade. Depois, temos eventos que podem ser distribuídos ao longo do ano e pela cidade também, como o recente aniversário de São Paulo, que teve cinco palcos, um por região, com shows sábado e domingo, até quase meia-noite. A Virada é um evento importante que precisa ser melhor debatido e analisado. Ela assumiu um tamanho muito grande. Tem problemas de arrastão, violência. Não é bom. Temos que ter um evento que não tenham isso. Temos que ter um número maior de eventos menores para não ter tanta concentração. 


A SPCine surgiu grande, com metas ousadas. Há a ideia de, por exemplo, criar 82 salas de cinema na cidade. O que vai ser possível fazer ainda dentro da gestão Haddad?

Acho que vamos conseguir fazer bastante coisa. Para ter esse número de salas de cinema, precisamos utilizar imóveis municipais, adquirir equipamentos e tela de primeira linha, de última geração. Isso significa utilizar teatros dos CEUs, da prefeitura, o Centro Cultural São Paulo, a Sala Olido. Temos um embriãozinho. Vamos ampliar. Isso também significa, a médio prazo, e aí não vai ser possível nesta gestão do Haddad, recuperar os cinemas que foram desapropriados pela prefeitura, como o Art-Palacio e o Cine Marrocos. Além de buscar, através de parcerias com exibidores e patrocinadores, fazer com que o setor privado assuma algumas salas. Assim como ocorreu com o Belas Artes. Dinamizar a exibição é fundamental: não adianta ter produção e não ter como exibir. 

Como você pensa a programação dessas salas?

Vamos colocar filmes brasileiros, independentes. Pode até ter Hollywood, mas não como hoje, que você tem um terço das salas de cinema com um único filme de lançamento. A ideia é que seja ou gratuito ou preço popular, mas quando você não cobra ingresso, não conta pra chamada bilheteria do filme, então do ponto de vista do filme nacional é importante que se cobre. Mas certamente será um preço muito baixo, ou com alguma contrapartida, tipo uma pipoca, um refrigerante. Isso até torna ir ao cinema mais atrativo para as pessoas. Temos que criar uma formação de público pro cinema. O Brasil tem uma presença muito inferior no cinema quando comparado a países como Argentina, México e Índia. O número de espectadores por população é muito baixo.

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