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'É preciso estar sempre a serviço da música', diz Roberto Minczuk

Maestro fala sobre sua carreira e o futuro da Orquestra Sinfônica Brasileira

DANIEL JAPIASSU, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h06

Ele vive para a música. "É amor, mesmo. Aquilo que torna tudo melhor", costuma dizer. À frente da Orquestra Sinfônica Brasileira desde 2005 e regente-titular da Filarmônica de Calgary, no Canadá, Roberto Minczuk viveu período turbulento no começo de 2011, com a crise na OSB. A troca de parte dos músicos gerou críticas até então desconhecidas para o trompista premiado que sempre associou a música à iluminação divina.

"Foi difícil, mas eu tinha uma missão". Qual? Transformar a orquestra numa potência sonora à altura das credenciais que seu regente carrega desde 1998, quando estreou no Central Park, à frente da Filarmônica de Nova York.

Ao que parece, este paulistano de 44 anos venceu. "Hoje tocamos com muita garra, comprometidos com a qualidade". Ele concedeu entrevista à coluna pelo telefone, de sua casa no Rio de Janeiro, dias depois de a OSB fazer grande apresentação no Complexo do Alemão. "Fiquei muito empolgado. Foi um ano de muito aprendizado para mim."

A seguir, os melhores momentos da conversa.

Como foi reger a OSB no Complexo do Alemão?

Emocionante. Uma alegria, porque apresentamos a Nona Sinfonia, de Beethoven, celebrando um ano de pacificação da comunidade. Usamos um coro de crianças muito bacana. O ponto alto foi a Ode à Alegria, que é o tema da sinfonia... a evocação à paz. Muito alegórico para o momento. Todos precisamos disso, o Brasil precisa disso. E o mais legal é que a Nona faz parte da minha vida desde muito cedo. A primeira vez que a interpretei eu tinha 11 anos.

Tocando trompa?

Sim, trompa. Todos os meus irmãos (somos oito) tocam instrumentos. Meu pai também é músico, foi professor de oboé dos meus irmãos.

Mas por que trompa? Não é um instrumento usual...

Antes da trompa, eu tocava trompete, estudava piano. Um dia, meu pai me ouviu tocando trompa e sugeriu que eu estudasse mais a fundo. Porque percebeu que eu tinha um ouvido muito bom e trompa é um instrumento que só quem tem bom ouvido consegue tocar. Aí comecei. E gostei muito do instrumento, viu? Eu tinha 9 anos de idade. Aos 12, já tocava profissionalmente, aos 13 me tornei primeira trompa do Teatro Municipal. Em 1985, com 18 anos, ganhei a primeira edição do Prêmio Eldorado, tocando Haydn e Mozart. E isso foi muito importante para a minha carreira.

O que o levou à batuta?

Meu pai, desde que eu tinha 6 anos, me preparou para isso, para a regência. Comecei a reger com 15 anos. Estava nos Estados Unidos. Fui para lá aos 14, estudar na Juilliard, em Nova York. Aos 20, fui para a Alemanha, ser trompista da Orquestra Gewandhaus, de Leipzig. Mas porque eu queria estudar com o Kurt Masur, que era o maestro-titular. Ele me ensinou algo muito importante: que é preciso estar sempre a serviço da música.

Como foi voltar ao Brasil para estudar com Eleazar de Carvalho?

Eleazar era um mestre total. Mas minha relação com ele é muito mais antiga. Toquei pela primeira vez com o maestro aos 11 anos, no Festival de Campos do Jordão de 1978. Ele também dizia que eu tinha bom ouvido.

Mas o fato é que o senhor não tem "bom ouvido", mas ouvido absoluto.

Pois é. Quando eu ouço uma música, ouço todas as notas.

Isso pode ser um problema para um maestro, não?

Ah, sim! Porque é como ver em raio X. O que está aparente e o que está dentro. Sou capaz de ouvir a diferença mínima de afinação numa mesma nota executada por um mesmo músico. Se ele toca um ré bemol, por exemplo, eu noto a nuance da afinação. Com o passar do tempo, fui aprendendo a "desligar" o ouvido. Senão, ficaria louco (risos).

Porque a perfeição não existe.

Claro. Muitos compositores, músicos e maestros sofrem com isso. E é algo que precisa ser trabalhado, porque pode se tornar paralisante.

Como foi a estreia internacional como regente?

Muito bonita. Foi em 1998, no Central Park, com a Filarmônica de Nova York. Tocamos para 90 mil pessoas. Foi o que abriu as portas do mercado para mim. O concerto foi muito bem recebido, teve críticas muito boas. A partir dali pude desenvolver carreira internacional, regendo as grandes orquestras do mundo.

E quais as melhores?

Ah, são muitas. Filadélfia, Cleveland, Atlanta, Dallas, Calgary (da qual eu sou regente titular). Na Europa, a Filarmônica de Londres, a Orquestra da BBC de Londres, a Nacional da França, a Filarmônica de Israel. Também tenho regido a Filarmônica de Tóquio. É um privilégio. E sempre uma chance para mostrar os compositores brasileiros lá fora.

O senhor, sempre que possível, inclui compositores brasileiros em suas apresentações fora do País. É mais fácil tocar autores nacionais no exterior? Porque há aquela sensação de que o brasileiro resiste ao que é nacional.

Hoje em dia o interesse é maior. Houve época em que só lá fora se dava valor à obra nacional. Acho que o Brasil está evoluindo. Não podemos nos achar menores do que os outros países. Temos compositores excelentes. Não estou nem falando de Villa-Lobos, que é um gênio, mas é sempre maravilhoso poder reger Guarnieri, o padre José Maurício Nunes Garcia e os contemporâneos Almeida Prado (recentemente falecido), Edino Krieger. Também faço muitas estreias mundiais de autores contemporâneos.

Isso também era um tabu, não, maestro? Dizia-se que música erudita tinha data de começo e de término.

Nós vivemos um momento em que não há mais espaço para tabus. Liberdade é tudo. E hoje o compositor não precisa se sentir censurado pelos colegas, pelos acadêmicos. Se a música não é abstrata, é considerada anacrônica. Havia muito isso até metade do século 20. O próprio Villa-Lobos era considerado old fashioned (risos). Hoje, ainda bem, isso acabou.

O senhor tem um compositor favorito?

Bach. É pão, como diria o Arthur Nestrovski. É perfeito. Faz bem à alma e à mente. Tive a oportunidade de morar em Leipzig, a cidade de Bach, onde comprei muitos manuscritos. Raramente há uma correção, a música dele já nascia perfeita. E para qualquer instrumento. Recentemente, estava com a OSB, o Yamandu Costa e o Hamilton de Holanda. Eles tocaram uma peça de Bach. Parecia ter sido escrita para violão e bandolim.

Como está a OSB hoje?

Muito bem. Estou muito satisfeito. Os músicos têm demonstrado uma paixão que é fundamental - tanto para o erudito quanto para o popular, porque fazemos muita MPB também. É preciso encarar Paralamas com a mesma seriedade, A mesma devoção com que se enfrenta a Quarta Sinfonia de Mahler. Sem preconceito, com muita garra, comprometido com a qualidade, com a música. Só assim as coisas dão certo.

Que gravações estão previstas para o ano que vem?

Estou gravando todas as sinfonias de Beethoven com a Filarmônica de Calgary. Já fizemos a 1ª, a 3ª, a 5ª, a 7ª e a 8ª. Em 2012, gravaremos a 2ª, a 4ª e a Pastoral (6ª). Além disso, o DVD e o CD do show no Rock in Rio serão lançados no primeiro semestre. A OSB gravou ao vivo com Paralamas, Titãs e Legião, uma maravilha. Fiz também uma gravação belíssima, em abril, com a Orquestra de Câmara da Filadélfia, de obras de um compositor americano contemporâneo chamado Jonathan Leshnoff. É um oratório chamado Hope. A peça foi indicada ao prêmio Pulitzer, o que me deixou muito feliz. O DVD e o CD serão lançados no começo de 2012.

E a agenda da OSB?

Ainda não divulgamos. Mas haverá muitas novidades, será um grande ano para nós.

Como foi a celebração de 20 anos de casamento?

(risos) A gente celebra não só o casamento, mas a família diariamente, porque é prioridade. A família sempre foi mais importante que a carreira para mim. Sempre que possível, levava minha família em minhas viagens. Às vezes, gastava tudo que ganhava, mas valia a pena. Acho uma bênção de Deus a Valéria e nossos quatro filhos, a Natalie, de 19 anos, a Rebecca, que tem 17, o Joshua, de 14, e a Julia, que está com 8.

Eles tocam o quê?

A Natalie toca violoncelo, piano, canta e rege o coro da igreja. A Rebeca é compositora, em primeiro lugar. Também toca piano e canta, só que curte mais MPB e gospel. Já o Joshua é roqueiro mesmo (risos), toca guitarra elétrica. E a Julia estuda piano e canto. Tem música o dia inteiro em casa. O que me fascina é que eles se divertem. Nem sei se, profissionalmente, irão para esse caminho. A Natalie, por exemplo, está terminando o segundo ano de Economia na GV.

O senhor é um homem religioso. Como é isso na vida do músico e do maestro?

Sou protestante. Na verdade, sou cristão, meu relacionamento é com Cristo. Sou uma pessoa que vai à igreja, sou dedicado. Não é questão só de tradição, mas de fé mesmo. A música, para mim, é algo espiritual, é a luz.

Quando não está regendo, gosta de fazer o quê?

Adoro rafting. Tenho duas experiências memoráveis. Uma foi no sul da Bahia, em Itacaré; a outra, no rio Colorado. Mas quero conhecer Brotas. Também adoro dançar e gostaria de me aperfeiçoar. Invejo quem conhece todos os estilos de dança, da valsa ao rock.

Qual o seu estilo preferido?

Melhor não dizer (risos).

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