'É preciso destruir'

Repetir o que deu certo é algo que o belga Vandekeybus nunca se permite

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2013 | 02h20

A companhia de Wim Vandekeybus surgiu na Bélgica. E ainda hoje tem lá sua sede. Mas, na hora de batizar o nascente grupo, 25 anos atrás, ele encontrou na língua de outro país o nome ideal: Última Vez. "Foi durante uma passagem pela Espanha, fazendo workshop de preparação para O Que o Corpo Não Lembra (What the Body Does Not Remember)", recorda o coreógrafo. "Ainda que aquela fosse a nossa primeira vez, deveria ser como se fosse a última. É assim eu vejo: as coisas têm que ser únicas, não podem se repetir. Escolhi esse nome de maneira muito impulsiva. Mas acho que ainda faz sentido pensar no meu trabalho dessa forma."

Aquilo que o público presenciou em 1987, quando o espetáculo entrou em cartaz, parecia mesmo diferente de tudo o que havia sido feito antes. Sem ter passado por uma escola formal de dança ou teatro, Vandekeybus valia-se essencialmente da intuição na hora de criar: "Método" que trouxe formas desconhecidas ao palco. Uma tal agressividade física, cinco homens e cinco mulheres em confronto constante, tudo para criar uma peça que o New York Times classificou à época como "dura, irônica, fantástica."

Eleita para abrir hoje a Bienal Sesc de Dança 2013, a obra mostra dançarinos a se arriscar jogando grandes blocos de concreto uns sobre os outros. Demanda, por isso mesmo, uma precisão absoluta. Mas o que Vandekeybus quer de seus intérpretes também vai na direção contrária: uma espécie de abertura para lidar com o inesperado, com aquilo que não pode ser controlado. "É mais ou menos como acontece no circo, que faz você sentir algo que não sabe bem o que é. Ainda que eu nunca tivesse imaginado que as duas coisas pudessem ter uma conexão", ressalva ele. "Nos anos 1980, circo ainda era aquela coisa com elefantes e tudo mais. Mas hoje muita gente que vê o trabalho o relaciona com aquilo que o novo circo está fazendo agora."

Para Vandekeybus, uma obra precisa sempre surpreender o público. "Mas é possível alcançar grande impacto sem dizer como ou por que as pessoas devem se sentir de determinada maneira. Luto sempre contra essa superficialidade. Detesto trabalhos moralistas, que têm um sentido a ser ensinado. Quero que as minhas obras se aproximem muito mais daquilo que a música consegue fazer."

O PODER DO SOM

Estar cercado de músicos e estabelecer com eles uma estreita relação foi sempre uma prerrogativa do trabalho da cia. Última Vez. David Byrne, Marc Ribot, Mauro Pavlowski, Thiery de Mei: são apenas alguns dentre os muitos compositores com os quais o grupo trabalhou nos últimos anos. "A música é uma arte muito comunicativa. Com a dança acontece o mesmo. Você quer expressar algo: suas dúvidas, seus medos", considera o artista belga. "Tenho planos de fazer um filme musical, em que as pessoas possam cantar suas emoções."

Se a música é muito importante nessa trajetória, não dá para dizer que ela esteja sozinha. Outras artes entram na receita de Vandekeybus para criar um espetáculo. Nesse sentido, What the Body Does Not Remember difere um pouco das criações que vieram depois. Sem a mistura de mídias e tecnologias que se tornaria uma de suas marcas. Naquela peça de estreia ainda não havia texto, um elemento que se tornou relevante em outros títulos. Nem os filmes que seriam tão marcantes, funcionando como imensos cenários. "Mas eu nunca filmo, por exemplo, os dançarinos em cena para depois projetá-los. Cada obra pede uma coisa específica. Em uma peça sobre o rádio eu não preciso ter imagens. E quando estou fazendo um filme ele pode ser simplesmente cinema, não precisa ter nada a ver com dança", diz ele, que desenvolveu carreira independente como cineasta.

Cada obra, considera Vandekeybus, é um caminho completamente novo. "É claro que amadureci e cresci durante esse tempo. Mas continuo achando difícil a tarefa de fazer uma obra boa. Ainda fico noites sem dormir quando começo um novo processo. Não basta olhar para aquilo que você fez e deu certo. É preciso destruir isso e ir adiante", diz o autor de cerca de 40 coreografias. "Sou um bom observador. E tento fazer algo com isso."

A companhia Última Vez estará em Santos hoje e amanhã. Wim Vandekeybus, porém, não virá junto. Precisa acompanhar o lançamento de seu último filme, além de preparar a próxima coreografia do grupo, marcada para estrear em abril em 2014. Ainda sem título definido, a criação deve cruzar diversas histórias independentes e mesclar formas diferentes de dançar. "É ótimo levar What the Body Does Not Remember para o Brasil. Mas gostaria muito de mostrar também algo mais recente", observa ele. "Existem planos de fazer a première dessa nova coreografia aí no ano que vem. Tomara que dê certo."

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