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É permitido fumar

Se era um bom ator? Não importa - nos três filmes que fez na vida, Roberto só queria saber de divertir sua plateia

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

10 Abril 2011 | 00h00

Na recente reprise, em cópias de película de finíssima qualidade, de Violência e Paixão, muitos se surpreenderam com a trilha do grande Luchino Visconti. Na cena da orgia sexual, com planos de nu frontal de Helmut Berger (tão ousados que o filme entrou no índex da Censura, nos anos 70), o visual terminou ficando em segundo plano porque o áudio falou mais alto. Como, Roberto Carlos num clássico viscontiano? Sim, La Mia Solitudine Sei Tu, na voz de Iva Zanicchi.

É, claro, o título mais nobre da filmografia do Rei Roberto, mesmo que a voz não seja dele. O próprio Roberto cantou em O Caminho das Nuvens, longa de Vicente Amorim em que Wagner Moura, na fase pré-Capitão Nascimento, faz o típico brasileiro profissão esperança, que atravessa o País pedalando com a família, em busca de uma vida melhor no Rio. Roberto também tem dado depoimentos em documentários e o mais recente foi Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, que reconstitui a final do Festival de MPB da Record. Edu Lobo e Capinam venceram com Ponteio, mas até hoje há um debate acirrado sobre o uso da guitarra elétrica por Gilberto Gil em Domingo no Parque. Roberto era um dos finalista e se lembra da emoção daquela final.

Seria possível mapear outros filmes em que as canções de Roberto embalaram a ação, ou pelo menos serviram de fundo. O Roberto romântico de Cavalgada, de Detalhes, da Varanda. Cada um tem o seu Roberto, de preferência no coração. No cinema ele é, principalmente, o astro, a voz, a presença da trilogia realizada, entre 1968 e 72, por Roberto Farias. Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa, Roberto Carlos a 300 Km por Hora.

Curiosa figura, Roberto Farias. Tendo feito sua formação nas chanchadas da Atlântida, ele se iniciou na direção, chanchadeiro, com Rico Ri à Toa, mas logo, numa mudança de rumo, iniciou com Cidade Ameaçada o que virou uma trilogia informal. Na sequência do policial estrelado por seu irmão, Reginaldo Faria, e por Eva Wilma, vieram outros filmes com Reginaldo - O Assalto ao Trem Pagador baseou-se no assalto que marcou época. O próprio filme virou o emblema do policial brasileiro clássico e a sua brilhante narrativa até hoje permanece modelar. Veio o terceiro filme e, com ele, outra mudança de rumo.

Não mais o policial urbano, mas uma narrativa vigorosa sobre a luta de classes (e a utilização do trabalho escravo do homem e a coisificação da mulher), adaptada do romance de Hernani Donato. Selva Trágica é obra-prima brasileira, mas fosse por ser deprimente ou violento demais, ou por mostrar o Brasil da fronteira paraguaia que fugia à paisagem do Cinema Novo, não importa o motivo, o melhor filme de Farias foi também seu único fracasso de público. Ele mudou o tom, Roberto Farias vivia mudando; fez uma comédia (Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera) e depois fez um, dois, três filmes com Roberto Carlos.

Você nem precisa entrevistar um nem outro. Há numerosos vídeos no YouTube em que os dois Robertos, o Carlos e o Farias, discutem sua obra conjunta. Farias diz que, numa certa época, Roberto Carlos e ele buscaram material para o que seria o quarto filme, mas não encontraram. Ele foi ficando cada vez mais difícil, até mítico. Roberto, o Carlos, diz que ficou amigo do diretor - amigo para sempre -, mas não faria sentido mais um filme, só por filmar. Teria de ser especial. Ele diz que não é, nunca foi, ator. Farias discorda - "Num registro difícil, ele era irônico com a própria imagem, a própria interpretação."

Roberto Farias e Roberto Carlos não inventaram a globalização, com certeza, mas o sucesso de Em Ritmo de Aventura levou ao Diamante Cor de Rosa e ao exterior. Eles filmaram em Israel e no Japão. Em A 300 KM por Hora, Roberto Carlos invadiu as pistas de automobilismo e Roberto Farias filmou corridas de verdade, das quais participava Émerson Fittipaldi. Como desdobramento, um pouco mais tarde ele fez o documentário O Incrível Fittipaldi. Na tela, Roberto Carlos nunca estava sozinho. Com ele dividiam a cena Erasmo Carlos e Wanderléa, o trio sagrado da Jovem Guarda. Wandeca, a bem da verdade, já não participava do último.

Jean-Luc Godard, um dos maiores revolucionários do cinema, diz que toda ficção carrega em si um documentário, sobre a época em que foi feita. Farias diz a mesma coisa, embora com outras palavras. Seus filmes, suas ficções, formam uma espécie de documento para quem quiser saber como era o Rei Roberto por volta de 1970. O primeiro filme, na linha de Os Reis do Ié-Ié-Ié, de Richard Lester, sobre os Beatles, traz Roberto no próprio papel. Ele canta muito - o filme parece um LP, hoje seria um CD, com imagem. Roberto canta Eu Sou Terrível, Como É Grande o Meu Amor por Você, Por Isso Eu Corro Demais e outros standards.

Só como curiosidade, vale assinalar que a revista Rolling Stone considera a trilha de Roberto Carlos em Ritmo de Aventura o 24.º melhor disco brasileiro de todos os tempos. Roberto canta menos em O Diamante Cor de Rosa e não canta nada em A 300 Km por Hora - Roberto Farias diverte-se enormemente (e ri, no vídeo do YouTube) por haver frustrado a expectativa do público e, mesmo assim, o filme foi um êxito. O Diamante tem uma intriga mirabolante que começa com um amuleto no Oriente Médio, prossegue com a mesma relíquia redescoberta em Tóquio e aí traz vilões internacionais para o Rio, cujas belezas naturais guardam um segredo.

O próprio Farias escreveu o 1 e o 2, Roberto Carlos em Ritmo de Aventuras e O Diamante Cor de Rosa. No 3, A 300 Km por Hora, comprou o roteiro de Bráulio Pedroso. Nenhum desses filmes faz parte da grande história do cinema brasileiro. Nenhum crítico vai citá-los pela alta qualidade estética. Foram feitos para divertir. "O que mais a gente podia fazer na época?" - em plena ditadura -, pergunta Farias. Um cinema alienado e alienante? Assim eram tratados pela crítica. Hoje, nas entrelinhas, oferecem um documentário sobre a época. Farias não exagera. Para saber como era o Rei, seus filmes continuam sendo referências.

TRILOGIA COM ROBERTO FARIAS

Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1968)

Primeiro da série com roteiro do próprio Farias. Sua trilha foi eleita pela Rolling Stone como o 24º melhor disco brasileiro de todos os tempos

Roberto Carlos e o Diamante Cor de Rosa (1970)

Também com roteiro de Farias, envolve intriga que começa no Oriente Médio, passa por Tóquio e chega ao Rio, cujas belezas guardam um segredo

Roberto Carlos a 300 Km por Hora (1971)

Roteiro de Bráulio Pedroso. Em seu último filme, o Rei invade pistas de automobilismo, onde Farias filma corridas de verdade, das quais participava Emerson Fittipaldi

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