E PERFUMADA ARDENTE

Rosa Passos joga luz sobre Elizeth Cardoso com repertório clássico e pouco associado a ela

LAURO LISBOA GARCIA, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h06

Rosa Passos não é do tipo de cantora que precisa "desconstruir" uma canção consagrada para torná-la novamente interessante. Herdeira estilística de João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina e outros do mesmo naipe, ela transforma tudo o que canta pelos aspectos peculiares de sua personalidade revelada na voz. Soma-se a isso o impecável tratamento harmônico dado às canções, que ela deixa nas mãos de músicos não menos tarimbados.

Agora, acompanhada de Lula Galvão (violão), Jorge Helder (baixo acústico) e Rafael Barata (bateria e percussão), que têm uma pegada jazzística, ela volta o foco para Elizeth Cardoso (1920-1990. A sugestão foi de um amigo que disse numa carta que Elizeth estava esquecida e estava certo de que Rosa seria quem melhor a traria de volta à lembrança do público.

O óbvio de uma homenagem como essa seria regravar clássicos definitivos do repertório da Divina, como Canção de Amor, Nossos Momentos, Barracão, Sei Lá, Mangueira, ou qualquer uma do álbum Canção do Amor Demais. Embora as influências do clássico de 1958 estejam implícitas em teoria e prática, Rosa optou por um repertório que, apesar de muito conhecido e regravado, não se associa de imediato a Elizeth.

Para mais de uma geração, essas canções tiveram registros marcantes de Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Miltinho, Doris Monteiro, Beth Carvalho, Nara Leão, Nana Caymmi, Gal Costa - como Olhos Verdes (Vicente Paiva), Último Desejo e Três Apitos (as duas de Noel Rosa), As Rosas Não Falam e Acontece (ambas de Cartola), Palhaçada (Haroldo Barbosa/Luís Reis), Saia do Caminho (Custódio Mesquita/Evaldo Rui) e Diz Que Fui Por Aí (Zé Ketti/Hortênsio Rocha).

"Passei um tempo pesquisando e segui pela linha cancioneira de Elizeth, porque ela tinha essa riqueza de repertório, cantou de tudo", diz Rosa. Com apoio dos elizetistas Hermínio Bello de Carvalho e Sérgio Cabral, ela defende as escolhas por motivos especiais: "Ary Barroso fez É Luxo Só para ela cantar num show. As Rosas não Falam Elizeth gravou antes de Beth Carvalho. Cartola fez Acontece para ela. Saia do Caminho veio da história de amor dela com Evaldo Rui. Tem tudo isso. Fiz questão de abrir o CD com Olhos Verdes, que foi o carro-chefe da Dalva, mas sempre pensando na leitura de Elizeth."

Em homenagens de um intérprete a outro há sempre o risco de redundância, mas não é o caso aqui. Em todas as canções dessa homenagem Rosa faz tudo diferente de Elizeth e das outras cantoras que as gravaram. Se ela afina com a Divina na versatilidade, no suingue e no romantismo, se distingue no estilo de interpretar, mais introspectivo - o que fica mais evidente nas versões delicadas de duas canções de Cartola.

Exaustivamente apontada como uma versão feminina de João Gilberto - a quem homenageou no CD Amorosa (2004)-, Rosa, a exemplo dele, lapida o já feito, como é o caso de É Luxo Só, que ganha brilho distinto da versão do álbum Pano pra Manga, de 1996.

Na cadência bem marcada como a da baiana de Olhos Verdes, dentro da estética do samba-jazz, esse seu 16º álbum remete ao encontro de Elizeth com o Zimbo Trio, ardente e perfumado. Rosa também quis trazer à luz esse aspecto da cantora que ficou mais conhecida pelo samba-canção. Só resta a curiosidade de ver como ficariam algumas preciosidades de seu lado B.

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