'É ótimo envelhecer; experiência é muito melhor', diz atriz

Maria Luísa Mendonça, que ganhou fama como a hermafrodita Buba, de 'Renascer', não tem medo das rugas

Franthiesco Ballerini, do Jornal da Tarde,

10 de novembro de 2008 | 11h57

Ela é uma das poucas atrizes (e certamente das raras mulheres) que não vê a hora de envelhecer. A atriz Maria Luisa Mendonça, 38 anos, gosta de falar aos amigos que já completou 40. "Gosto da experiência que o passar dos anos traz", justifica. Filha de uma artista plástica e de um advogado, ficou conhecida pelos papéis de mulheres desequilibradas e sensuais. Seus grandes momentos na teledramaturgia foram a hermafrodita Buba, da novela Renascer (1993), e a homossexual Letícia, da minissérie Engraçadinha (1995). A mãe de Júlia - fruto do casamento com o diretor da Band Rogério Gallo - hoje é casada com o diretor de cinema Cláudio Torres, por quem foi dirigida no filme A Mulher Invisível, comédia com estréia prevista para 2009. Projeto é o que não falta no futuro próximo da artista. Há mais um longa dirigido pelo marido a estrear, a comédia A Mulher do Meu Amigo. Ela também fez uma ponta em Se Eu Fosse Você 2, de Daniel Filho, com Tony Ramos e Glória Pires. Ainda espera relançar a peça Os Sete Afluentes do Rio Ota no teatro, em São Paulo, até o final do ano. Planos para a TV aberta? Não. Você fez a minissérie ‘Queridos Amigos’ e o programa ‘Casos e Acasos’ na Globo enquanto fazia a série ‘Mandrake’ na HBO. Foi uma opção porque a TV paga dá mais liberdade criativa?  Eu fiz nove dos 13 episódios de Mandrake e concordo plenamente, existe uma liberdade muito maior na TV paga. Tudo é mais ousado, dos temas às cenas. Em Mandrake, falamos todos os palavrões possíveis. Ela não serve para a TV aberta porque tem criança vendo TV o tempo inteiro. Mas foi muito prazeroso falar de assuntos que a TV aberta e as novelas não me deixam falar. Frustra fazer um trabalho de qualidade como ‘Queridos Amigos’ e ser visto por poucos telespectadores por conta do horário (a minissérie teve problema com o ibope)? A primeira minissérie que fiz foi Engraçadinha. Ela era no mesmo horário que Queridos Amigos. Sempre me falam que apareço muito tarde na TV. Mas eu não vejo como desanimador, pois faço um produto que tem começo e fim, que posso lapidar ao longo dos capítulos porque sei o final. E a nossa salvação é que ele acaba em DVD depois. Recebi o box de Engraçadinha recentemente e adorei. Era uma caixa com uma revista para banca de jornal. Achei aquilo o máximo. Enfim, essas séries têm uma vida mais longa que a pura exibição na televisão. O mesmo acontecerá com Mandrake, que é algo parecido com Família Soprano e com Queridos Amigos. Quando volta para a TV aberta? Tenho uma desconfiança de que a peça Rio Ota volta ao teatro no fim do ano, depois de quatro temporadas. São quatro horas de espetáculo, uma saga. Dificílimo, mas prazeroso. Para TV aberta, não tenho nada definido. Não sou contratada fixa da Globo, depois de 10 anos fixa na emissora. Isso foi uma opção minha para poder fazer cinema e teatro na hora que quisesse. Isso me permitiu também fazer trabalhos na TV paga, como o programa do Canal Brasil em que apresento filmes da América Latina. Tirando que adoro ter tempo livre para pintar. Pintar quadros? Adoro pintar quadros em óleo sobre tela nos intervalos dos trabalhos. Estudo, tenho meu grupo no Parque Laje. Antes que você me pergunte, acho que expor um dia vai ser inevitável, pois a pintura tem de dialogar com o público. Mas vou apreciando a autonomia que ela nos dá enquanto isso não acontece. Com as minhas tintas, formo uma equipe de trabalho e tenho toda liberdade para experimentar e comandar. É verdade que você já quis ser freira? Estudei em colégio de freira até o início da minha adolescência. Era a queridinha da turma. Tinha uma coisa ativa quando criança de solidariedade. Isso porque o colégio era de freiras que tinham voto de pobreza. E como o colégio era muito próximo da favela, eu era muito ativa em ajudá-las nas regiões pobres. O teatro foi até um meio para isso, pois eu levava a marionete e apresentava nas instituições. Enfim, quando criança, como gostava dessa generosidade, me espelhava na freiras.  E por que desistiu? Aos 13 anos, fiz uma viagem com os meus pais e a minha irmã, a gente ficou rodando o Brasil por uns três meses. Quando voltei, já nem pensava nisso. Até porque, na adolescência, fui ficando mais vaidosa, gostava de me vestir bem, de me pintar. Recentemente, você afirmou que consegue ficar feia e bonita ao mesmo tempo. O que quis dizer exatamente? Meu biotipo ajuda. Quando falei isso, pensei no personagem doutor Junqueira na Valsa Número 6, que era um monólogo do Nelson Rodrigues. Não é nem pela caracterização. Meu rosto é muito flexível, faço uma careta e fico feia mesmo. Além disso, sou meio camaleão. Me acho bonita em algumas horas, em outras nem tanto. Me preocupava apenas com a calça jeans que ia vestir, mas depois dos 30 anos fui apreciando mais uma pintura, um sapato alto, uma blusa bonita. Gosto de receber elogios, mas também não me incomoda quando não estou nos meus melhores dias. A hermafrodita Buba de ‘Renascer’ ainda é muito lembrada. Incomoda? Eu tinha 23 anos, vinha de uma formação teatral. Foi um papel que juntou a curiosidade do público por mim e pela história da personagem. Mas acho que foi tão marcante assim porque fiz apenas três novelas na vida (Renascer, Explode Coração e Corpo Dourado, além de uma pequena participação em Senhora do Destino). A novela das sete (Corpo Dourado) tem um ibope diferente, Queridos Amigos passou tarde (na faixa das 23h). Isso ajuda a Buba a ser lembrada. Faz 10 anos que não faço novela, acho que se fizer uma trama das oito agora tem um monte de gente de uma nova geração que nem vai lembrar dela. Tenho que fazer uma novela para tirar a Buba da memória coletiva (risos). Você está com 38 anos, a chegada dos 40 assusta? Outro dia, falei que estava com 40 anos de tanto que quero fazer 40 anos. É ótimo envelhecer. Claro que a máquina vai ficando diferente, mas a experiência é muito melhor. É tão bom ver uma mulher de 80 anos bonita e não é raro ver uma de 20 anos horrorosa, morta em vida. Quero ser uma senhora bonita, mas para isso é preciso cuidar da máquina todos os dias. Como é a sua relação com o diretor Rogério Gallo, o pai de sua filha, Júlia? Não converso nada sobre trabalho com ele. Não temos nenhuma relação de trabalho. Estou separada do Rogério há nove anos, sou casada hoje em dia. Sou casada com o Cláudio Torres, com ele converso sobre tudo. Tenho uma relação de respeito com o Rogério porque ele é o pai da minha filha. Ele mora em São Paulo e vem ao Rio com freqüência para ficar com a Júlia.  Planeja ter mais filhos? Tenho vontade, sim. Penso nisso. Mas cabe a mim e ao Cláudio saber qual o melhor momento para isso. O que a chegada de Júlia mudou em sua vida? Ter uma filha me mostrou que sou gente grande e essencial. Eu degusto a criação da minha filha. Sempre quis ter um filho, tenho um lado maternal muito aflorado, gosto muito de criança. Você fez recentemente o filme ‘Nossa Vida Não Cabe Num Opala’ e seu papel era bem esquisito. Você fazia uma mulher que seduzia todos os irmãos de uma família. Por que a escolha por mulheres fora dos padrões? Eu gosto da repetição do texto com os diferentes atores. Resolvi não ver a peça nem ler o livro porque os comentários poderiam atrapalhar. Também não achei necessário pesquisar os braços já existentes do roteiro. Quanto ao personagem, gosto desse tipo de papel. Por eu ser uma pessoa solta, descolada, me escolhem para essas mulheres diferentes, esquisitas.

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