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E os netos?

Amamos nossos filhos, mas temos dificuldade em enxergar o poder que temos sobre eles

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2017 | 02h00

Filhos... Filhos?

Melhor não tê-los!

Mas se não os temos

Como sabê-lo?

Se não os temos

Que de consulta

Quanto silêncio

Como os queremos!

Nesta reflexão que Vinicius de Moraes chamou de Poema Enjoadinho, ele fala de filhos. E da radical transformação da erótica afinidade conjugal em consanguinidade filial marcada de aporrinhações. Planejamos paternidades e maternidades. Mas não temos o menor controle sobre os filhos dos filhos que, por sua vez, podem gerar filhos, permitindo - se você abandonar por uns minutos a fedentina da politicalha nacional e olhar para que vale a pena - vislumbrar o leque da vida na qual podemos não ser cidadãos escandinavos (aliás, como sê-los?), mas somos todos filhos e netos. 

*

O que as crianças e os velhos têm em comum?

Os bebês choram aos gritos, os velhos choram com lágrimas. Por isso, têm os olhos sempre molhados...

Os bebês nada sabem, mas nós temos experiência de vida e...

De nada! 

Eu recuso as sabedorias históricas, tipo: “Eu sei o que você sente porque já tive vinte anos”. Acho que a “vida” produz singularidades e essas produzem de volta generalidades. Sem isso, não haveria Pessoas, Bandeiras, Machados, ou Becketts...

Quem não espera Godot?

*

O fato concreto é que os nenéns só têm o colo da mãe e ficar velho é passar por muitos colos numa viagem de gozo e sofrimento.

Caminhamos do singular e do exclusivo para o plural e o compreensivo quando pensamos que somos adultos. Seria aceitável dizer que as criancinhas choram por uma mulher - a mãe, a quem eles se atam no mundo -, enquanto os idosos choram por uma variedade de abrigos em peitos, colos e braços. A eterna busca de uma Virgem-Mãe, na qual a maternidade subtraiu a biologia, pode ser sintoma de uma fascinação pelo ventre materno com o qual convivemos protegidos antes de entrarmos em cena. É preciso sair para entrar.

*

E os netos?

Os filhos nos ancoram no mundo. O laço entre pais e filhos é difícil, senão trágico. Freud fala no “complexo de Édipo”. Não é fácil dosar carinho extremado com autoridade primordial - essa dimensão de poder definidora de sexualidades matri ou patriarcais. Nossas relações com sobrinhos e netos são leves e soltas; oblíquas ou marginais, como dizia um velho colega. São elos que passam por outros elos e a ponte é fundamental no vale de lágrimas.

Um problema oculto nas paternidades e maternidades é o seguinte: na procriação, viramos deuses - damos vida. Distribuímos presentes, afetos, palavras e vida. Quando damos vida, viramos deuses e essa parte é reprimida porque é a mais carregada. Como criadores, devemos tudo às nossas criaturas. Amamos nossos filhos, mas temos dificuldade em enxergar o imenso poder (e a consequente responsabilidade) que temos sobre eles. Um poder tão desmedido que é, em quase todas as sociedades, embargado por figuras colaterais aos pais como padrinhos, nominadores ou avoengos, como dizia um Darcy Ribeiro que não gerou filhos.

Fabricamos nossos filhos física e socialmente. Ao trazê-los sem consulta para esse teatro de horrores, contraímos uma irreparável dívida. Cedo ou tarde, descobrimos que, além de pobres deuses, somos miseráveis pintores, diretores de teatro e escritores, pois produzimos uma súcia de ciumentos, idiotas, feios, audazes, sofredores, geniais, inseguros, belos, honestos e fingidos. Grandes atores e convencidos canastrões, como manda a irônica sabedoria humana. 

*

Eu só fui saber do quanto sou canastrão depois dos setenta...

Meu caro, aos vinte, já sabia do meu desmazelo!

*

Na semana passada, fui à formatura de mais uma neta. Todos estão se formando e eu amo meus três netos e minhas cinco netas com o amor do amor. Todos lindos e equilibrados na suas cordas bambas. Todos livres da minha autoridade e alvos da minha incondicional ternura. Filhos têm respeito; netos, afeto. Quando tudo vai bem, os filhos viram irmãos. Mas os netos nascem fraternalmente.

*

Um amigo querido me diz mais ou menos o seguinte: o destino me privou de filhos, netos. Só agora é que sinto falta... 

Li a mensagem com esses olhos molhados de sempre. É do Peter Fry - e de todos a quem fraternalmente dividimos o que sabemos para que possam suportar o mundo e a vida - essa crônica.

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