''É obra absolutamente magnífica e única''

Patrick-Gilles Persin, HISTORIADOR E CRÍTICO DE ARTE FRANCÊS

, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2010 | 00h00

Se a obra de Antônio Bandeira sair da obscuridade em que se encontra, parte do mérito terá de ser dividida com o historiador e crítico de arte francês Patrick-Gilles Persin. Autor de mais de uma dezena de livros, especializado em arte abstrata, tornou-se um entusiasta do pintor cearense. Além de assinar a apresentação do catálogo da exposição Um Brasileiro em Paris, Persin está empenhado em jogar luz na obra de Bandeira.

Em entrevista concedida momentos antes do vernissage da mostra, na sede da Unesco, o crítico explica por que aprecia o brasileiro. "É alguém que se reconhece imediatamente", observa. A seguir, trechos da conversa.

Hoje, Antônio Bandeira é um pintor desconhecido na Europa, mesmo entre apreciadores da arte. Mas qual era a dimensão da sua obra nos anos 50 e 60?

Bandeira teve um lugar muito importante, era um personagem que contava. Ele expôs nas melhores galerias de sua época, a começar pela Galérie Édouard Loeb, que era a grande galeria dos abstratos dos anos 50. Não se podia expor em melhor lugar em Paris. Mas Bandeira devia ser um personagem muito selvagem, muito atípico. Segundo minhas pesquisas, era alguém que amava as festas, que trabalhava todo o tempo. Já a divulgação e a venda de suas obras não lhe interessavam muito. No momento em que tinha do que viver, tudo estava bem.

Se expunha em galerias de prestígio, imagino, era um pintor valorizado.

Se era caro, não sei. Mas, se Bandeira expunha na Édouard Loeb, significa que não era barato. Hoje, Bandeira nem sequer tem cota na França. Um comissário que pusesse à venda uma tela de Bandeira seria obrigado a enviar publicidade a certos interessados para explicar sua importância. Agora, não. Com essa exposição, com o catálogo, as coisas estão voltando para o lugar certo.

Por que razão a obra de Bandeira é importante?

Eu não conhecia sua obra. Conhecia seu nome, por vê-lo em catálogos. Mas como pintor, não o conhecia bem. Conheci-o há um ano e meio, quando Vera (Vera Novis, comissária da exposição e especialista no pintor) veio a Paris e me deu seu livro. Ela me disse: "Você precisa ver isso". Eu vi e afirmo: "É absolutamente magnífico. Bandeira era amigo de Camille Bryen e de Wols, e observou bem pintores como Vieira da Silva, Wols, Bryen e Paul Klee. Além de seu temperamento de brasileiro - que se percebe em seu trabalho -, sente-se na sua pintura toda essa influência. Mas ele se desvencilhou de todos muito rapidamente. Logo encontrou seu estilo, sua escrita, sua personalidade. Em suas viagens, alternando entre Paris e o Brasil, reconfortou sua pintura. Ele se alimentava no Brasil, e quando retornava trazia outras referências intelectuais, que introduzia em sua obra.

O senhor afirma que Bandeira não era um gênio. Por quê?

Mas há muito poucos gênios! O importante é a originalidade de seu trabalho, o fato de que, ao contrário de muitos outros, ele não se parece com ninguém. Bandeira tem uma identidade própria, uma escrita própria, um estilo próprio, que tornam possível a identificação de sua evolução como pintor. É alguém que se reconhece imediatamente.

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