E o 'velho' tinha razão, foi o que o tempo provou

Conheci Paulo Emílio Salles Gomes em Porto Alegre, em 1973 ou 74. Era um jovem crítico e fui entrevistar o grande homem, convidado a dar uma palestra na cidade. Encontrei-o no quarto de hotel. Ele foi simpático, nem um pouco intimidador.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

Ocorre que, justamente naquela época, o jornal em que trabalhava, a extinta Folha da Manhã, estava em plena campanha pela liberação sem cortes de Gritos e Sussurros. A obra-prima de Ingmar Bergman, a que eu já assistira em Buenos Aires, estava ameaçada de sofrer cortes - especialmente na cena em que Ingrid Thulin quebra a taça e corta sua vagina com o caco, como agressão ao marido. Nas matérias que publicávamos no jornal, a cena era descrita em detalhes, até como desafio à censura.

Não é que Paulo Emílio não estivesse interessado em participar da cruzada pró-Bergman. Ela simplesmente não era sua prioridade. Paulo Emílio queria falar - e defender - o cinema brasileiro. Já tinha, como palavra de ordem, a frase "O melhor filme estrangeiro não vale o pior filme brasileiro". Confesso que me escandalizei. O "velho", e agora o digo carinhosamente, me pareceu defasado, um louco.

Paulo Emílio Salles Gomes foi uma rara figura de intelectual brasileiro. Ligado à França e sua cultura, publicou em francês, pela Seuil, seu elogiado livro sobre Jean Vigo. Fundou o Clube de Cinema de São Paulo, a Filmoteca e, com Almeida Salles, foi um dos fundadores e principais mantenedores da Cinemateca Brasileira. Criou o curso de cinema na Universidade de Brasília, se não me engano atendendo a uma convocação de Darcy Ribeiro.

Escreveu roteiro (Capitu, de Paulo César Saraceni), romance (A Mulher dos Três PPPs), viveu sua linda história de amor com Lygia Fagundes Telles. Deixou um legado rico, influenciou gerações de críticos e cineastas. Suas coletâneas de textos publicados no antigo Suplemento Literário do Estado renderam volumosos livros que provam que Paulo Emílio muitas vezes - quase sempre - esteve à frente de sua época, como soem fazer os grandes críticos.

Mas havia aquela palavra de ordem. O pior filme brasileiro... Qual era o pior filme brasileiro em 1973/74? As pornochanchadas já estavam no auge e nem todo mundo era Pedro Carlos Rovai, com suas viúvas virgens e vizinhas. Havia filmes muito ruins e só com o distanciamento permitido pelo retrospecto pode-se dizer, hoje, como era gostoso o nosso cinema. A pior pornochanchada melhor do que Gritos e Sussurros?

Demorou para eu entender que a posição ideológica, tanto quanto estética, de Paulo Emílio era produto de sua generosidade, como homem e crítico. Do seu compromisso com o País. Só o nosso cinema nos revela e reflete na tela e até o filme ruim de hoje pode ter um valor importante como testemunho, amanhã. Grande Paulo Emílio. A guerra continua. A maioria da crítica elege hoje o filme miúra, em detrimento do blockbuster, como se fossem excludentes. Paulo Emílio estaria na linha de frente, lutando pelos dois.

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