É o samba folk de Cat Stevens, meu irmão!

Cantor arrebata em show com canção inédita dedicada ao futebol brasileiro

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2013 | 02h15

A voz cristalina e a postura autoconfiante de Yusuf (o homem que já se chamou Cat Stevens) parecem ter criado uma zona de armistício morno na noite do sábado passado, no Citibank Hall, na zona sul de São Paulo. Muitas famílias muçulmanas na plateia, muitas mulheres com hijabs, muitos gritos de saudação em árabe, muitos pedidos de canções que não serão cantadas.

"Essa música é do último disco que eu fiz como Cat", avisa o músico antes de cantar Roadsinger, e pronuncia o "Cat" quase como se falasse alguma palavra profana, proibida.

O que se pode levar adiante da personalidade antiga após uma conversão? O que se deve deixar para trás? Cat Stevens/Yusuf funciona como uma espécie de ponte cultural, um homem que transita com notável desenvoltura entre o universo pop e as louvações religiosas - e os crescendos, os climas milenares de suas canções mais recentes, referendam esse segundo papel. Ele é dois homens sagrados em um.

Primeiro, é o bardo pop de voz envolvente que elevou o espírito de uma época com seu toque de seda no violão. Depois, é o sedutor cavalheiro islâmico de modos de Sir, que empresta uma elegância já quase extinta a versos como os de First Cut Is the Deepest. Não sufoca o próprio legado. Do início, com Moonshadow, até o final, com All Kinds of Roses, ele revisitou toda a própria carreira durante o show, incluindo músicas inéditas e passando por um hino dos Beatles, All You Need is Love.

Ao longo do espetáculo de natureza semi-acústica (apesar da banda de cinco músicos, que trabalha mais na vocalização que na instrumentação), ele foi trocando de violão o tempo todo. Yusuf só foi ao teclado três vezes, a primeira delas para cantar Sad Lisa. Ao teclado, mostrou um folk modernizado, mais elétrico, típico de uma época de transição do elétrico para o eletrônico.

Depois, pulou direto para o elogio às excentricidades do cineasta Hal Ashby, que o convocou para fazer a música de um filme maravilhoso, Ensina-me a Viver (Harold and Maude), de 1971. Cantou Don't Be Shy em uma atmosfera de sonho, uma névoa detrás de si cortando os fachos da iluminação do show - iluminação que viraria um carnaval verde, azul e amarelo logo em seguida. Foi quando o ar diplomático de Yusuf lhe permitiu fazer o elogio das qualidades do anfitrião pagão, o Brasil. Primeiro, pediu uma camisa da seleção brasileira para, em seguida, cantar uma canção inédita que acaba de compor em tributo ao futebol brasileiro.

O Jogo Bonito, ele contou, foi iniciado na internet, com uma consulta ao Google Translator - é difícil reconhecer algo de português na pronúncia de Cat Stevens, mas o "sambalanço" de sua banda é tremendamente jorgebenjoriano. É uma iniciativa tão simpática que é impossível desfazer da sua levada caricatural. Como diria Jackson do Pandeiro (1919-1982): "É o samba folk, meu irmão!".

Yusuf parou a música no início três vezes, a primeira delas para reclamar que o teleprompter não estava colocando a letra da canção (e confessar que ele próprio não lembra de todas as suas letras). Fez isso com tremenda naturalidade, algo típico de um artista para quem a opinião dos outros já não é o que importa mais, e sim, sua própria satisfação pessoal.

Falou da sua identificação com a música de protesto, que foi cristalizada no hino My People. E quando ele cantou, no bis, em sequência, seus dois maiores sucessos, Father & Son e Wild World, as canções saíram divinamente familiares, exatamente como são executadas há cerca de 30 anos no dial de rádios como Alfa FM e outras de oldies. Cat Stevens está vivo e intocado dentro do mundo espiritual de Yusuf, descoberta que nos encheu de alegria.

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