E o novo surge em todo o seu esplendor

Camerata Aberta vence o 'desafio Schoenberg' em Campos do Jordão

João Marcos Coelho, crítica, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2010 | 00h00

Como uma obra pode olhar ao mesmo tempo para o passado e para o futuro? Ou melhor, será que todas as obras, mesmo as mais radicais, têm sempre um pé no ontem e outro no amanhã?

A julgar pelo quinto concerto da Camerata Aberta, realizado na segunda-feira, no Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão, dentro da 41.ª edição do Festival de Inverno, a resposta é sim. A Sinfonia de Câmara n.º 1, opus 9 de Arnold Schoenberg (1874-1951), escrita em 1906, portanto antes de ele romper com a tonalidade, nutre-se do passado e aponta o futuro, mesmo que o seu criador repudie um ou outro.

Limites da tonalidade. Ainda tonal (gira em torno de mi maior, mas funda-se no intervalo de quarta), a obra para 15 instrumentos força os limites da tonalidade, "empilha notas que anulam a polarização" previsível, diz Guillaume Bourgogne no folheto do programa. Foi por isso que Webern ficou alucinado quando a ouviu. "Senti que precisava compor algo como aquilo! No dia seguinte escrevi um movimento de sonata em que atingi os mais longínquos limites da tonalidade."

Este é o seu lado "futurista". O ontem fica por conta da retórica ainda romântica, calcada no extremo virtuosismo, nas dinâmicas sutis que cada instrumento tece independentemente do parceiro.

Ora, por tudo isso, a Sinfonia de Câmara exige um regente não só habituado à música nova, mas banhado na tradição interpretativa romântica. É preciso, por mais paradoxal que soe, imprimir-lhe expressividade romântica para que o novo surja em todo o seu esplendor.

Eduardo Leandro, correto na regência, passou longe deste "tropo" romântico. E com isso "secou" o paradoxo que aloja a genialidade da obra. O nível de execução foi elevado. Por isso, é permitido sonhar com filigranas como as descritas.

O grupo repetiu obras já executadas anteriormente: as ótimas orquestrações de Eduardo Guimarães Álvares para três madrigais de Gesualdo e Dona Letícia, de Silvio Ferraz, diretor artístico-pedagógico do festival que substitui Stefano Gervasoni como professor de composição nesta primeira semana (em seguida, Roberto Vitório assumirá as aulas).

Caleidoscópio. O concerto para viola de Gervasoni, com Christophe Desjardins (viola), é só um caleidoscópio que se esgota nas técnicas expandidas tão comuns nas músicas de hoje. Ele deveria lembrar-se da frase de Jean Molino: "Os compositores dispõem hoje de um extraordinário leque de possibilidades e saberes técnicos e científicos, mas talvez não saibam ainda se servir direito deles para fazer música boa."

Privilégio pessoal mesmo foi assistir ao concerto uma fileira atrás do Arditti Quartet, que na tarde de segunda mostrou em master class para embasbacados estudantes do festival como encarar e preparar obras contemporâneas. Aleluia! Os bolsistas finalmente adentram o gramado do século 21!

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