E o Larry, Lula?

Rohter errou, mas a ameaça da sua expulsão causou mais prejuízos do que a reportagem

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2020 | 03h00

Por que governos populistas eleitos ou não, de direita e esquerda, implicam com a imprensa? O culto da imagem do grande líder ou mito não pode ser arranhado. Pura insegurança, pois sua liderança não se sustenta.

Porém, um dos episódios mais lamentáveis de um governo popular e democrático, que gozava de uma rara legitimidade e estabilidade, não fazia o menor sentido. Basta reler a nota divulgada por seu ministro interino da Justiça, em 2004:

“Em face de reportagem leviana, mentirosa e ofensiva à honra do presidente da República Federativa do Brasil, com grave prejuízo à imagem do País no exterior, publicada na edição de 9 de maio passado do jornal The New York Times, o Ministério da Justiça considera, nos termos do artigo 26 da lei n.º 6.815, inconveniente a presença em território nacional do autor do referido texto”.

Determinou-se o cancelamento do visto temporário do correspondente do jornal, Larry Rohter, que fez uma reportagem infeliz sobre os excessos alcoólicos do presidente Lula, mas que não trouxe prejuízo algum à Nação.

Cinco anos depois, no segundo mandato, Lula foi chamado por Obama de o “político mais popular do planeta”. “My man, I love this guy!”, disse para todos ouvirem o presidente americano. Em Londres, na foto da recepção da rainha Elizabeth II com outros chefes de Estado, foi ele o escolhido para estar ao lado dela. O premiê britânico, Gordon Brown, disse que Lula era encarado como uma espécie de “porta-voz dos países pobres do mundo”. 

A nota fora assinada por Luiz Paulo Teles. O ministro Thomaz Bastos estava em viagem oficial e se recusou a assinar, pois discordava do chefe, Lula, que também defendia controlar a imprensa num antidemocrático Conselho Federal do Jornalismo. A Polícia Federal intimou o jornalista, que teria oito dias para se mandar. 

Lula chegou a dizer: “O governo brasileiro deve tomar as decisões que a lei permitir que tome. Eu acho que não merece resposta, merece uma ação”. O jornal americano enviou uma carta se dizendo perplexo e indignado. Ricardo Kotscho, lenda do jornalismo de resistência do País, secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência, também desaprovou a atitude do chefe. 

O ministro do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Francisco Peçanha Martins deu um salvo-conduto para que o jornalista permanecesse no País. Três advogados do jornal americano apresentaram uma carta ao Planalto pedindo a reconsideração do visto em 2009. 

Rohter escreveu que “jamais ter tido a intenção de ofender a honra do Excelentíssimo Senhor Presidente da República, a quem já pôde até mesmo entrevistar em algumas ocasiões, e reafirma seu grande afeto pelo Brasil e seu profundo respeito às instituições democráticas brasileiras, incluindo a Presidência da República”.

No ano seguinte, a The Economist colocou o País na capa com a manchete “Brazil takes off” (Brasil decola).

Encontrei Rohter alguns anos depois na Nave Mãe, como eles chamam a sede da redação do New York Times. Ele não guardava mágoas. Falou empolgado do livro que estava para lançar, Brasil em Alta. No ano passado, publicou o livro espetacular Rondon, Uma Biografia.

O século começou mal para a imprensa livre. Na Venezuela, o regime cassou licenças de rádio, fechou a RTCV, multou a Globovisión e restringiu o acesso ao papel-jornal. Na Argentina, Cristina Kirchner declarou guerra contra os jornais Clarín e La Nación. Mirou suas próprias fábricas de papel-jornal. Ameaçou nacionalizá-las. O Pacto de San José da Costa Rica proíbe expressamente o controle sobre papel-jornal.

Daniel Ortega, da Nicarágua, reteve papel e tinta dos jornais, empastelou jornais e rádios, acusou jornalistas de terrorismo, invadiu um canal de TV e prendeu seus diretores. Na Índia, Narendra Modi sufocou a imprensa independente, cortou propaganda oficial do canal NDTV. Como Rodrigo Duterte, das Filipinas, que não renovou concessões e ataca a imprensa nas redes sociais. 

Em 2019, Trump cancelou as assinaturas dos jornais Washington Post e New York Times das repartições do governo federal, inclusive da Casa Branca. Retaliou anulando os acordos do dono do primeiro, Jeff Bezos (Amazon), com o USPS, o Serviço Postal. 

Bolsonaro fez o mesmo e, como na Turquia, Polônia e Hungria, tira verba de propaganda oficial da mídia de oposição e deu para a favorável. 

Em 2010, Viktor Orbán, primeiro-ministro húngaro, passou a multar a cobertura da imprensa que fosse considerada parcial. Os jornais foram fechados e seu amigo de infância, Mészáros, que instalava tubos, hoje é dono de um império de mídia e tem a segunda fortuna do país. Todos estão listados no livro da Patrícia Campos Mello, A Máquina do Ódio, que inclui os episódios da invasão da Folha feita por Collor por policiais da PF.

Larry errou. Mas a ameaça da sua expulsão causou mais prejuízos à imagem de Lula do que a reportagem, pois vire e mexe o episódio é lembrado. O ex-presidente tem perfil de estadista, não de ditador, fez autocrítica quanto ao episódio de Cesare Battisti, tem reconhecimento internacional, mas continua hostil a alguns órgãos da imprensa.

É ESCRITOR E DRAMATURGO, AUTOR DE ‘FELIZ ANO VELHO’, ENTRE OUTROS

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