"É o cão que nos torna humanos", diz pesquisadora

Desde que os cães surgiram há 50 milhões de anos, talvez nenhum latido mais veemente tenha sido dado em sua defesa do que o da acadêmica americana Marjorie Garber, em Amor de Cão (Record, 388 págs., R$ 39). Lançado em 1996 nos Estados Unidos, o livro chega agora ao Brasil para delírio de criadores, donos e admiradores da alma canina. Não é para menos. Garber, transexual nascido William Kenan Jr. e diretora do centro de estudos literários e culturais de Harvard, escreveu um longo e profundo ensaio no qual afiança que a saída para a crise de valores que assola a humanidade late e abana o rabo. "O cão se torna o repositório daquelas propriedades humanas paradigmáticas que cinicamente deixamos de encontrar nas pessoas", escreve ela. Em outras palavras, ter como companhia um cachorro alivia o estresse, invoca profundamente sentimentos humanos e ajuda a sedimentar a bondade e o respeito. "Amor de cão é incondicional e menos conflituoso que o de seres humanos", continua. Para provar sua tese, ela mergulha na cultura popular e erudita e mostra como os cães vêm servindo de exemplo a ser seguido para tornar o mundo melhor. O repertório mobilizado por ela vai de Argus, o canis classicus, que abana a cauda para Ulisses quando este retorna de sua odisséia, mesmo disfarçado, a cães contemporâneos como Rin-Tin-Tin, Snoopy e Lassie, a collie que se transformou no maior astro canino de Hollywood quando, em 1945, foi para o front em Filho de Lassie e depois em A Coragem de Lassie, no qual salva seu dono e as tropas aliadas. Cães não foram importantes apenas na literatura ou no cinema. Garber analisa sua relevância, por exemplo, na política ou nas atividades clínicas de Freud. Em 1927, o psicanalista foi presenteado com um cachorro da raça chinesa chow-chow, Lun Yug, que morreu num acidente 15 meses depois, e foi substituído por outro, a adorada Jo Fi. Logo, ele e sua família tornaram-se criadores de chow-chows. À medida que a idade avançava e aumentavam os desgostos de Freud com a humanidade, os cães, diz Garber, ofereceram-lhe uma nova e reconfortante ocupação. As fotos do vienense com seu cão no ambiente de trabalho não significam meramente ornamentos. Segundo a acadêmica, Jo Fi acompanhava o dono durante as sessões de análise e, embora haja controvérsias quanto à sua função ali, Garber invoca o testemunho de Martin Freud, filho do psicanalista, segundo o qual a cadela sinalizava o fim da sessão quando começava a se agitar. Em sua ode canina, Marjorie Garber traçou o repertório dos mais famosos cães, fictícios ou não, dos Estados Unidos e alguns países europeus. Latidos luso-brasileiros - Uma versão luso-brasileira ocupando-se do mesmo tema também revelaria uivos e latidos dignos de nota. A começar por um dos cães mais famosos da literatura brasileira, o fiel Quincas Borba do romance homônimo de Machado de Assis. Isso leva a pensar que os céticos, especialmente, nutrem sincera afeição canina. O Bruxo do Cosme Velho fez do personagem de sua obra, Rubião, herdeiro universal dos bens de Quincas, mas estipulou uma cláusula pela qual o amigo deveria cuidar do cão até o animal morrer. Graciliano Ramos parecia também preferir cachorros aos homens. Ele tornou a cadela Baleia uma mártir famosa e um dos personagens mais humanos de Vidas Secas. Quando a versão cinematográfica de Nelson Pereira dos Santos foi exibida em Cannes, a produção do filme se viu forçada a embarcar a cadelinha no Brasil e levá-la à França para provar que ela não tinha morrido durantes as filmagens. Recentemente, também José Saramago se converteu à cinofilia, talvez em razão de seu crescente desencanto com a população humana. Em seu mais recente romance, A Caverna, o Nobel de 98 imortalizou o vira-lata Achado, nome verdadeiro de um dos três cachorros de sua casa nas ilhas Canárias. Quem ousará dizer, depois de ler o livro de Marjorie Garber, que o ex-ministro Rogério Magri derrapou ao declarar que "cachorro é um ser humano como outro qualquer" para explicar por que motivos havia embarcado sua cadela Orca em um carro oficial? Garber ainda acrescentaria: "É o cão que nos torna humanos".

Agencia Estado,

15 de janeiro de 2001 | 12h59

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