É o amor outra vez

Filme de Arnaldo Jabor, Eu Te Amo vira peça com Alexandre Borges e Juliana Martins

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2012 | 03h09

Desiludidos, cada qual com a sua história, um homem e uma mulher decidem que não querem mais amar ninguém. Nem sempre, porém, o coração obedece a tais ditames. E, sem aviso, o destino virá bagunçar o que parecia tão certo, tão sensato.

O mote valeu a Arnaldo Jabor um dos mais bem-sucedidos filmes de sua trajetória: Eu Te Amo (1981). E agora, passados mais de 30 anos, retorna no formato de espetáculo teatral. Protagonizada por Alexandre Borges e Juliana Martins, a peça abre sua temporada paulistana hoje.

Foi a atriz quem idealizou o projeto. Em busca de uma personagem feminina que a liberasse um pouco dos contornos infantilizados que costuma exibir na televisão, Juliana vasculhou peças, livros e filmes. Acabou se decidindo pela película de Jabor. "Era hora de mostrar um outro lado", diz ela, que ocupa o papel que já foi de Sônia Braga.

Não é a primeira vez que o argumento de Eu Te Amo é transposto para o palco. Em 1987, o próprio Jabor assinou uma montagem. No princípio da abertura democrática, quando o cinema amargava a crise que se aprofundaria com a extinção da Embrafilme, ele abraçou momentaneamente o teatro. À época, coube a Paulo José e Bruna Lombardi interpretar os amantes.

Na atual versão, a estrutura não sofreu alterações substanciais. Apenas um "aggiornamento", que desse à trama um colorido atual. "A essência continua a mesma. Foi só uma contextualização para os dias de hoje", comenta Juliana. Para Alexandre Borges, "a estrutura do roteiro já era muito teatral. É um traço característico do Jabor".

Os personagens Paulo e Maria, que antes se conheciam na rua, agora se esbarram na internet. Além disso, o deslumbre da década de 1980 com as novas tecnologias - o que agora poderia soar um tanto naif - é abandonado. Saem os televisores que compunham o cenário. Entram algumas projeções que sublinham o vínculo entre a obra e sua matriz cinematográfica.

Essa relação com a tela grande também se evidencia na escolha dos diretores. Os cineastas Lírio Ferreira (O Homem Que Engarrafava Nuvens) e Rosane Svartman (Desenrola) debutam como encenadores.

"Como Jabor nos deu total liberdade para mexer no texto, também ressaltamos a relação do personagem com o cinema", observa Rosane. O empresário que Paulo César Pereio vivia no longa de 1981 tornou-se agora um cineasta em crise. Sua casa - local onde se passam todas as ações - cedeu espaço a uma produtora falida.

O País mudou muito nas últimas décadas. Os relacionamentos, nem tanto. Quando um sujeito recém-separado e uma mulher cansada de ser a amante de um homem casado se encontram, o resultado continua a ser um inventário de medos e hesitações diante do sexo oposto.

Ambos fingem ser o que não são. Para evitar sofrimentos futuros, se esquivam de ligações afetivas. Creem estar protegidos enquanto se resguardarem em uma relação que é meramente sexual. Alguma semelhança com a realidade? Da mesma maneira, a tão apregoada fragilidade do "novo homem" também já se insinuava na obra original.

É por isso que os diálogos puderam seguir praticamente intocados. "São situações cotidianas, com as quais qualquer um se identifica", acredita Borges, que também já havia participado de uma montagem de outra obra de Jabor, Eu Sei Que Vou Te Amar. "Mas ele trata dessas questões por um viés psicanalítico, universal. Daí sua sobrevivência."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.