E no Tribeca, Elvis e Madona

Marcelo Laffitte nunca se esqueceu de um drama familiar retratado num programa de televisão americano, há mais de dez anos. Na época, o diretor carioca estava em Miami para apresentar o curta Vox Populi (1998). "Com o pouco de inglês que eu tinha, deu para perceber que era uma briga entre pai e filho. Depois de ter abandonado a família e virado travesti, há mais de 20 anos, o pai tinha voltado e roubado a mulher do filho." Daí nasceu a ideia de contar "uma história de amor que quebra todas as barreiras", como o romance entre um travesti e uma lésbica de Elvis e Madona, seu primeiro longa-metragem.

Elaine Guerini, especial para o Estado de Nova York, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2010 | 00h00

Único representante brasileiro em Tribeca 2010, a comédia romântica tem arrancado risadas do público que frequenta o festival criado por Robert De Niro e Jane Rosenthal - visando a recuperação econômica de Manhattan após os ataques do 11 de Setembro. Um dos 24 longas candidatos aos prêmios em dinheiro (de US$ 100 mil, no total), Elvis e Madona será exibido hoje pela última vez no evento, que se estende até domingo em Nova York.

"O filme foi amarrado de um jeito que, após os dez minutos iniciais, o espectador se desliga do fato de os protagonistas serem um travesti e uma lésbica. Não importa ser um casal invertido, desde que o envolvimento seja crível", disse Laffitte, que escolheu Igor Cotrim para encarnar Madona e Simone Spoladore para viver Elvis na colorida Copacabana.

Pizza. O casal se conhece quando a motoqueira Elvis entrega uma pizza na casa da cabeleireira Madona, que acaba de ser roubada e espancada pelo amante traficante. É o que basta para a dupla iniciar um inusitado relacionamento amoroso, em que o masculino e o feminino de cada um se destaca de acordo com a situação, como numa divertida dança em que os parceiros se revezam no posto de homem e de mulher.

"Transformar o corpo foi fácil. Mais complicado foi mexer na alma", disse Cotrim, muito aplaudido na sessão da última terça-feira, no Chelsea Clearview Cinema. "Se eu não encontrasse a verdade do personagem, de nada adiantaria depilar todo o corpo, aprender a andar de salto alto e a não quebrar as unhas postiças toda vez que colocava a mão no bolso", contou o ator, rindo. Cotrim conheceu vários travestis para criar Madona, trazendo o vocabulário específico desse universo aos diálogos - como aqué (dinheiro) e ocó (homem), além dos termos mais comuns como "tô bege", "tô passada", "tô choquita".

Festivais. Antes de chegar aos EUA, Elvis e Madona foi exibido no Festival Mix Brasil, em São Paulo, e nos festivais de Natal e de Tiradentes. Sua estreia ainda não está definida no circuito comercial nacional, mas a distribuição já está garantida pela Pipa e Espaço Filmes. "O filme dialoga com o público porque não é dirigido ao filão GLS. No mundo de hoje há espaço para qualquer tipo de relação. Nada mais nos surpreende", disse Laffitte. De Nova York, o cineasta segue para Los Angeles, onde o título integra a programação do Brazilian Film Festival. As próximas paradas incluem Paris, São Francisco e Zagreb.

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