E no futuro ainda haverá risos

Um robô e um humano formam estranho casal em Tempo de Comédia

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2010 | 00h00

QUEM É

SIR ALAN AYCKBOURN

ATOR, DIRETOR E DRAMATURGO

CV: Nasceu em Londres (1929), filho de violinista e da escritora Mary James. Ator, diretor e dramaturgo, escreveu mais de 70 peças e foi traduzido para 35 idiomas. Vários textos foram adaptados para TV e cinema, como Medos Públicos em Lugares Privados, filme dirigido por Alain Resnais. Ganhou o título de Sir em 1997 pelos serviços prestados ao teatro e dia 13 de junho receberá o Prêmio Tony, o maior do teatro americano, pelo conjunto da obra

Para produtores e artistas é sempre uma ousadia criar espetáculos com elenco numeroso. Para o espectadores, é quase sempre prazer ampliado poder percorrer o olhar e a atenção sobre uma gama de intérpretes. Pois a diretora Eliana Fonseca corajosamente dirige dez atores no espetáculo Tempo de Comédia, que estreou na semana passada no Teatro Popular do Sesi. Como o título em português indica, trata-se de uma daquelas peças cômicas de situação, um quebra-cabeças cujas peças se encaixam com perfeição e basta a troca de uma delas para produzir o efeito do riso. Tudo é muito bem urdido para criar expectativas e depois as quebrar, numa engrenagem cômica que exige precisão dos atores e talento quase coreográfico da direção.

Nessa montagem estão desde Luiz Damasceno e Malu Pessin, intérpretes de larga experiência e trajetória premiada, até jovens talentos como Julia Carrera. O ator Eduardo Muniz é também produtor e "correu atrás" dos direitos de montagem depois de ter visto uma encenação de outro texto do autor, o inglês Alan Ayckbourn (leia ao lado). "Ele tem um humor muito técnico e eficiente", afirma Muniz.

Ele e Julia formam o muito estranho "par romântico" dessa comédia, se é que se pode chamar assim a atração que brota, súbita, entre um robô e um humano. Toda a ação da peça se passa num estúdio de TV futurista, quando os atores de novela foram substituídos por máquinas. Na aparência são humanos, mas suas emoções são programadas. Nesse simples ponto de partida, claro, há crítica e ironia, mas Eliana Fonseca ressalta: "Se a gente tenta aprofundar um pouco, perde o ritmo e desanda. Há quem defina a peça como comédia romântica, mas também não é isso, a tessitura é outra, muito interessante. O autor não dá ponto sem nó. Cada cena, cada frase, vai ser retomada mais adiante com outro efeito", afirma a diretora.

A estrutura remete ao desenho em espiral. Damasceno é o diretor teatral que um dia teve ideias, mas chegou naquele ponto da carreira em que se dedica a dirigir robôs em cenas previsíveis de telenovelas. Tem como principal opositora Carla (Malu Pessin), amante do poder, sempre pensando em planilhas de custos que, por sua vez, vai se confrontar com o jovem escritor Adam (Eduardo Muniz), sobrinho do poderoso dono da emissora. Por incrível que pareça, o problema do diretor é justamente a criatividade ou o defeito que faz o robô falhar num texto ou, pior ainda, um outro a "rir" na hora errada.

Julia Carrera é a intérprete dessa "máquina defeituosa" cujo inesperado senso cômico vem à tona e detona toda a trama. No ensaio acompanhado pelo Estado, Julia consegue momentos muito bons na execução de cenas difíceis como as que sua "personagem" começa a chorar e expressa na sua atitude corporal a perplexidade que nela provoca tal emoção não programada. "Apesar de ser um robô, ela desenvolve a capacidade de rir e de amar. Há quem veja nessa peça uma recriação de Pigmalião", compara Eduardo Muniz com a personagem que passa por um processo de educação.

Adam chega ao estúdio com desejo de renovar a programação e detecta o potencial da robô Jace, por quem acaba apaixonado. A aproximação com a personagem explorada por Bernard Shaw e mais conhecida pelo musical My Fair Lady é mesmo possível uma vez que de início Jace só consegue reproduzir falas decoradas por sua participação em novelas e as faz em horas erradas, o que evidentemente é mais uma fonte de humor. P

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