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E, na próxima semana, Nello de Rossi ia começar a filmar

As notícias só diziam que o dono de restaurante tinha morrido, esquecendo de seu trabalho como ator e diretor de cinema

UGO GIORGETTI , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2013 | 02h10

Menos de um mês atrás, eu saía da cantina Nello's. Era mais de meia-noite e na porta estava o próprio Nello, dono do restaurante. Aos 92 anos, pequeno e magro, preparava-se para ir para casa a pé, como fazia todas as noites. Enfiou um gorro na cabeça, o que lhe deu o ar de um velho marinheiro de Nantucket, e me disse: "Na semana que vem começo a filmar". Despediu-se e foi caminhando solitário até a esquina de Antonio Bicudo e Artur Azevedo, virou à esquerda e desapareceu.

Foi a última vez que o vi, e a última em que me disse a frase que vinha me repetindo como um mantra ao longo dos últimos dez anos: "Na semana que vem começo a filmar". Esse filme que de tão improvável foi lentamente se transformando num autêntico filme imaginário, era seu alimento de todos os dias, comida e bebida, seu remédio, sua companhia, o sonho que o manteve vivo até os 92 anos.

Nello foi ator infantil numa Cineccitá ainda recém-formada. Conheceu Rosselini e De Sicca, era amigo de Alberto Sordi, há fotos suas com Mastroianni. Foi jovem para Nova York com seu irmão mais velho, outro aventureiro que atuou no clássico Napoleon, de Abel Gance, e lá ficou muito tempo. Mas, enquanto ganhava a vida em restaurantes, pensava em cinema. Realizou um belo curta-metragem sobre Nova York, e sonhava. Chegou ao Brasil, e quando seu restaurante começou a ter sucesso, abriu, não um outro restaurante, mas uma produtora de filmes. Participou, só ou em sociedade, de pelo menos três filmes de longa-metragem, dos quais um dirigiu pessoalmente. Não hesitou em colocar dinheiro do próprio bolso nos filmes, feitos à custa de muito fettuccine servido no restaurante. Pagava os próprios sonhos. Nunca pediu nada a ninguém, era uma figura estranha no meio cinematográfico e não participava nem de longe da política de cinema. Mas fez filmes brasileiros, de diretores brasileiros, com atores brasileiros, falados em português. Pelo menos um deles foi escolhido como o melhor filme num dos mais prestigiados festivais brasileiros. Desanimou com as condições de se fazer e exibir filmes no Brasil, jamais com o próprio cinema.

Durante mais de 30 anos ele nunca me falou de outro assunto. Vinha até a minha mesa no restaurante sentava e começava a falar de cinema. Era um italiano, trazia de maneira talvez oculta, mas de algum modo perceptível, aquela herança de uma Itália que, por pelo menos quatro séculos, se dedicou a ensinar a Europa a ser moderna. De um povo que se debruçou sobre outros povos para iluminá-los seja na arte, na ciência ou no comportamento, como escreveu o professor Braudel.

Nello, sem a cultura nem a erudição dos maiores, de um modo estranho, era depositário dessa herança. Colocava-se entre os grandes sem hesitar, falava de Rossellini como um amigo de infância, contava histórias aparentemente incríveis. Mas nunca é aconselhável duvidar de um italiano. Eu mesmo não estava convencido de que tivesse sido amigo de Sergio Leone como afirmava, até um dia em que topei com uma velha gravação em fita em que havia várias pessoas reunidas que conversavam com a intimidade de velhos amigos. Um deles era o diretor de Era Uma Vez na América, outro era o Nello. Esse homem inquieto sempre envolvido em seus delírios não recebeu a consideração que merecia. Um de seus filmes, primeiro longa-metragem de animação feito em computação gráfica no Brasil, não pôde ser exibido porque não obtém o certificado de produto brasileiro da Ancine. Aparentemente, a explicação é que Nello não era brasileiro. Pois bem, nem coisas como essa podiam demovê-lo de mais projetos. Andava com um roteiro debaixo do braço, convidando amigos e clientes do restaurante para atuarem em seu filme. Comprou equipamento digital, vivia o sonho até o limite, como se fosse realidade. Quando morreu há alguns dias, o parco noticiário dos jornais foi sobre a morte do dono de um restaurante. Não é verdade. Na próxima semana ele ia começar a filmar.

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