E na percussão... Chico Batera

Há 50 anos este homem leva suas baquetas a lugares em que muitos músicos sonhariam estar

Eric Nepomuceno, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2010 | 00h00

Foi em uma de suas idas a um estúdio de gravação que Chico Batera conheceu Wilson das Neves, um baterista excepcional, de um refinamento ímpar, que hoje integra, com ele, a banda que acompanha Chico Buarque quando ele resolve se apresentar. De Wilson ele ouviu uma indicação que deu rumo à sua vida: uma escola de música no Méier. O grande diferencial dessa escola era que, além de aulas, os alunos eram levados para tocar em bailes e gafieiras no fim de semana. Assim, ganhavam um traquejo excepcional. "Ali, aos 16 anos, forjei minha alma de músico."

Em 1960 surgiu o primeiro convite para trabalhar com carteira assinada. Ele nem bateria tinha: para se apresentar nos lendários shows de Carlos Machado na boate Night and Day, conta: "Peguei emprestada a de um médico, amigo da família, toda mal ajambrada, amarrada com arame." Fazendo jus ao nome da casa, sua vida virou da noite para o dia. O dinheiro era tanto que num instante ele passou a dividir apartamento em Copacabana com um dos maîtres da boate. "Achei que vida de músico da noite era aquela maravilha, que ia viver cercado daquelas madames que adoravam fazer charme", conta rindo muito. Quando Carlos Machado fechou a Night and Day, que ficava no imponente hotel Serrador, e trocou o centro da cidade pelo Leme, Chico foi junto. E diz que, aos 19 anos, foi de novo bafejado pela sorte: a poucas quadras de distância ficava o Beco das Garrafas, onde ele tocava nas canjas de fim de noite com Johnny Alf, Sergio Mendes, Luizinho Eça e Luís Carlos Vinhas. Fascinado pelo jazz, deixou o emprego mas continuou fazendo bailes no Cordão do Bola Preta. Valia o jazz, valia a bossa e valia a gafieira: valia batucar.

Pouco depois, foi convidado por Sergio Mendes para substituir Edison Machado no trio formado com o baixista Tião Neto. Juntos, fizeram uma longa turnê pelo Brasil, num show itinerante de moda armado pela Rhodia. A estrela era a cantora Nara Leão. Em 1963 o trio foi chamado para uma turnê universitária nos EUA, na trilha aberta um ano antes pelo concerto de bossa nova no Carnegie Hall. A turnê começou com festança oferecida pelo cônsul brasileiro em Los Angeles, e de repente Batera se viu diante de Marlon Brando, que tocava bongô ao lado de Leslie Caron e Pier Angeli. A excursão durou um ano. O trio se desfez, e em 1966, aos 22 anos, Chico Batera voltou para o Brasil. Não tinha ideia de como seria a vida.

Resolveu se oferecer para dar aulas de inglês, mas não chegou a tanto. Tornou a trabalhar como músico, e em 1967, logo depois do nascimento de seu filho Pablo, foi de novo para os EUA. Gravou sem parar. Entrou em contato com músicos hispânicos, ampliou seus horizontes: deixou a bateria de lado, tornou-se percussionista disputado. Foi aí que formou, convidado pelo violonista Bola Sete, o trio com Tião Neto. Em 71, depois de viajar muito, voltou ao Brasil, agora de vez.

Houve, é verdade, o ano e meio que passou fora, por causa da gravação do disco Numbers, de seu amigo Cat Stevens, que depois virou uma super excursão com 70 shows entre 1975 e 1976. Tem muitas histórias engraçadas dessa temporada. Além do salário semanal alto, ganhava diária de US$ 100. Só que tinha todos os gastos pagos. Resultado: terminada a temporada, montou o próprio estúdio. "O bom da vida de rico é que rico não mexe em dinheiro. Tem sempre alguém pronto pra pagar as contas." Foi sua única vez de rico, mas as histórias sobrevivem.

Das gravações com Frank Sinatra, guarda a alegria de ter tocado com um ídolo e o amargor de ver seu lado prepotente. "Estávamos gravando Sabiá, do Tom e do Chico, e Sinatra cantava feito um deus. De repente, interrompeu a gravação e encarou o jovem músico que tocava contrabaixo. Era o Chuck Berghoffer, muito bom, mas tinha errado uma nota. O Sinatra foi e perguntou se ele queria que chamassem o Ray Brown, um mito do instrumento. Ninguém pode humilhar alguém desse jeito. O pior é que o erro não era do músico, era de quem copiou as partituras do arranjador... Sinatra podia ter sido mais humano, mais generoso, menos prepotente. Cantando como cantava, não precisava se impor para ninguém, muito menos para um músico de orquestra, que devia estar achando, como eu, que estar ali gravando com ele era o máximo."

Tirando essa, guarda boas lembranças de todos com quem tocou. Mas destaca dois momentos dessa carreira riquíssima: o show com Elis Regina no festival de Montreux ("aquela não era uma banda, a gente se entendia como se fosse o ataque da seleção de 1970: César Camargo Mariano, Hélio Delmiro, Luiz Maia, Paulo Braga... fazer parte desse grupo é uma ocasião rara para qualquer um"), e os quase 30 anos ao lado de Chico Buarque. "É impossível descrever o clima, a qualidade do trabalho. Só nós, os músicos, sabemos. Com o Chico, conforme passa o tempo, tocamos cada vez melhor."

Por falar em tocar cada vez melhor, é isso o que Batera tem feito, agora à frente de um trio ? coisa rara, percussionista liderar conjunto, mas ele tem cacife para isso ? formado por Sérgio Barrozo, no baixo, e Kiko Continentino ao piano. Assim celebra seu meio século de profissão.

Começa a cair a noite na Praça XV, no Rio. Da porta da antiga tabacaria, andar gingado e camisa amarela, cachimbo apagado na mão, lá vai Francisco José Tavares de Souza, rumo aos 60 anos de batuque do Chico Batera.

Eric Nepomuceno, Escritor e Tradutor, É Autor, Entre Outros, De Antologia Pessoal (Record)

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