E mamãe Binoche não pode vir

Juliette Binoche havia sido muito simpática com o repórter do Estado em Cannes, concedendo uma entrevista individual quando seu tempo já se esgotara. Mas ela agora meio que se exasperou, numa nova entrevista por telefone. Juliette falava de casa, havia chegado tarde e dava para perceber, do outro lado da linha, sua filha que reclamava atenção ("Mamain! Mamain!"). Tudo por causa de uma pergunta. O repórter queria saber como ela reagira às críticas de Gérard Depardieu e Catherine Deneuve.

, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

Antes de mais nada, é preciso acrescentar que Juliette, convidada para vir mostrar no Rio Cópia Fiel, o longa de Abbas Kiarostami que lhe deu o prêmio de interpretação em Cannes, desculpa-se por não poder vir ao País. Alega compromissos familiares, com a escola da filha. De volta à tensão - Depardieu declarou à imprensa francesa que Juliette é uma atriz rasa e o prêmio de Cannes não foi merecido. A própria imprensa francesa havia criticado o prêmio porque uma foto da atriz ilustrava o cartaz de 2010.

Ela não quer polemizar com Depardieu. Diz que, muitas vezes, as pessoas dizem coisas impensadas no calor da hora. Uma declaração assim pode ser produto de circunstâncias que não valem levar adiante. A crítica de Catherine, "pescada" da internet, é outra coisa. "Catherine é minha amiga. Eu a respeito e admiro. Ela não teria feito declarações contra mim. Teria falado diretamente, e não o fez. Onde você leu isso?"

É preciso certa diplomacia para que a entrevista volte a um clima mais ameno. O prêmio de interpretação em Cannes foi surpresa? "Como assim, surpresa? Quando a gente é chamado ao Palais, na última noite, já sabe que ganhou. Eu soube umas duas horas antes. Não é como o Oscar, que você fica sabendo na hora" - e Juliette ganhou o dela, de melhor coadjuvante, por O Paciente Inglês. Suas lágrimas, durante a coletiva de Copie Conforme, correram mundo. Juliette chorou por Jafar Panahi, diretor iraniano preso pelo regime do presidente Mahmoud Ahmadinejad, e que também não pôde ir a Veneza, no começo do mês.

"Transformaram aquilo numa manifestação política, o que não era minha intenção. Meu gesto foi muito mais humanitário. Se mais pessoas se interessassem pelos outros, esse mundo seria um lugar bem melhor para se viver", ela diz. Sobre Cópia Fiel, acrescenta que o filme estreou na França com ótimas críticas.

"Naturalmente que houve vozes discordantes, mas isso faz parte. Não podemos esperar que todos pensem da mesma maneira. É o que fazem as ditaduras, e as combatemos. Não podem existir pesos nem valores diferentes."

História. Ela lembra a origem do filme, uma história que Kiarostami lhe contou em Teerã e pela qual ela foi se interessando cada vez mais. Uma história supostamente real - e, de repente, ele estourou numa risada e lhe disse que estava inventando tudo aquilo na hora. Queria ver até onde poderia ir sem que Juliette percebesse a fraude. Cópia Fiel nasceu assim, quando Kiarostami levou o procedimento da sua história - da sua piada - e fez um filme a sério. Juliette adorou Cópia Fiel.

Guarda excelente lembrança da filmagem na Toscana, um dos lugares mais belos do mundo. Como é Kiarostami como diretor? "Abbas é único, mas, como Amos (Gitai) ele não é nem um pouco autoritário no set. Ouve os atores, os técnicos. Discute a cena. Isso não o impede de terminar impondo seus pontos de vista, como autor." Juliette exemplifica. Ela gostou muito de determinada cena que havia pedido para interpretar de um jeito. O próprio Kiarostami concordou que havia ficado melhor, mas, na edição final, não foi a tomada que permaneceu.

Mademoiselle Binoche escolhe os filmes pelo papel, pelo roteiro ou pelo diretor? "As coisas se misturam muito, não vou fazer um roteiro que detesto, mas no limite é a personalidade do diretor - o autor - que me atrai." Seu novo filme, em pós-produção, é The Son of No One, uma produção norte-americana com Al Pacino e Channing Tatum. / L.C.M.

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