E lá fora, o mundo fez 30 minutos de silêncio total

Vida e obra não se misturam, nos ensinaram os estruturalistas. A obra de arte é autônoma, e nada tem a ver com seu criador nem com as circunstâncias em que foi concebida. O filósofo e crítico literário búlgaro Tzvetan Todorov, de 72 anos, há 48 radicado em Paris, fez do estruturalismo profissão de fé cerrada. Na última década, fez mea-culpa, admitiu que a visão estruturalista afasta leitores e ouvintes.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2011 | 00h00

Todorov não cita Mahler, mas é quase impossível ouvir Mahler sem misturar música e vida. A Nona Sinfonia, que Isaac Karabtchevsky regeu anteontem na Sala São Paulo, foi composta dois anos após o compositor sofrer o que o regente qualificou, em encontro com o público antes do concerto, como "a única dor indizível", a da perda de sua filha de 4 anos e meio. "Também eu perdi uma filha com 11 anos", revelou. Dali em diante ficou impossível não se impactar com a performance desta sinfonia que "celebra" o triunfo da morte. E termina num monumental Adagio que morre aos poucos, num pianíssimo dilacerante, depois de uma hora e meia de música fúnebre. Característica já do imenso Andante comodo inicial, uma série de seis cortejos fúnebres entremeados de episódios em que a vida insiste em se intrometer.

A maior dificuldade na interpretação da Nona Sinfonia está nestes dois movimentos. O "ländler" e o rondo burleske intermediários não oferecem tantos obstáculos. E, se o Andante comodo não comprometeu, também não chegou a entusiasmar. A carga emocional que o maestro procurou passar aos músicos teve resposta retardada - só aconteceu no Adagio final.

Desde o início da lancinante melodia nas cordas até o pianíssimo final, por cerca de 30 minutos o mundo lá fora pareceu imóvel. Tudo acontecia naquele palco. Execuções irretocáveis. E olhem que todas as primeiras estantes são muito expostas no Adagio, com solos que vão das trompas à flauta (magnífica), até violino, viola, violoncelo e as demais madeiras e metais.

Pianissimo final. Karabtchevsky afirmou que não contém o choro quando rege os adagios das sinfonias de Mahler. Pois conseguiu algo que, ao vivo, só presenciei num concerto cuja data guardo até hoje: 22 de maio de 2000 no Teatro Municipal de São Paulo, quando Claudio Abbado regeu esta sinfonia com a Filarmônica de Berlim. Em ambas as ocasiões, os maestros mantiveram a tensão da morte iminente até o pianissimo final. São estes momentos que justificam a paixão pela música - tanto de quem está no palco como dos que estão na plateia - e comprovam sua importância nas nossas vidas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.