É Karol com Ká

Rappers começam a sair dos guetos de Curitiba - o primeiro deles é Karol

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

"De pele marrom mandando um som/ De cabelo black usando batom/ tô de moletom quebrando no flow/ Subindo a ladeira curtindo o que é bom." Não é só a rima afiada que dá provas do talento em ebulição. O groove também é esperto, o cenário é suburbano e a voz, doce e alegre. O mais novo renascimento do rap, menos politizado e protagonizado por expoentes masculinos como Criolo e Emicida, já pode aclamar um representante feminino longe das quebradas de São Paulo.

Seu nome é Karoline dos Santos de Oliveira, conhecida como Karol Conka, e a cidade é Curitiba. Foi por lá que a jovem rapper deu as caras e ajudou a consolidar uma cena cada vez mais forte dentro do hip hop nacional. "O berço do rap é São Paulo, mas ele sempre esteve presente aqui para os lados do sul, aqui no Paraná. A cena era bem forte, mas agora está mais forte", diz a cantora, ainda desacostumada com o assédio de fãs e da imprensa.

De uma hora para outra, conta ela, "a coisa explodiu", fruto de um EP gravado para o Coletivo Hip Hop e do clipe da música Boa Noite. Gente de Todo Cant.

Atordoada, Karol viu que precisava gravar um disco para colocar suas ideias no lugar. Tinha algumas letras, mas faltava a "batida", como gosta de dizer. Quando conheceu o experiente Nave Beats, produtor de nomes como Marcelo D2, Kamau e Emicida, a afinidade foi imediata e o trabalho rapidamente ganhou forma e conceito. O álbum está previsto para sair em janeiro pelo selo Sallve.

Em atividade desde 2002, a simpática MC só foi descobrir que gostava de rap na adolescência. Até então, suas preferências musicais ficavam entre o samba e a MPB. "Sempre quis ser artista, mas não sabia que seria no rap, porque não conhecia o estilo direito. Aí eu fui numa loja e comprei o CD do Fugees e conheci a Lauryn Hill. Foi um impacto na minha vida", conta a curitibana, realizada com a amplitude verborrágica do gênero. "Na MPB, não cabia o que eu queria falar."

Um dos primeiros desafios foi lidar com o timbre da própria voz, segundo ela, "muito fino". Mas nada superou a resistência da família com relação à nova profissão. "Minha mãe não achou muito certo. Tivemos algumas discussões, mas depois tudo se resolveu porque ela começou a ver o resultado."

Nos versos das músicas de Karol, logo fica evidente que não se trata de um rap de protesto, destinado a falar de violência, favela ou discriminação com os negros. Os temas são quase sempre do universo pessoal da cantora, como romances, flertes e baladas.

Ela diz ser fã da linhagem mais engajada do rap nacional, de Racionais e Sabotage, mas afirma que nunca se sentiu pressionada a escrever sobre coisas "mais sérias". "A nova geração chega com esperança. É natural que a cada década surjam coisas diferentes nas músicas. O meu rap é uma coisa mais alegre mesmo. Quero que meu público escute minha música e se sinta bem."

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