É hora de buscarmos um novo formato para a telenovela

ANÁLISE: Lauro César Muniz

O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h11

A primeira telenovela brasileira no formato de exibição diária nasceu em 1963, quase 51 anos atrás, na TV Excelsior. De lá para cá, houve alterações e progressos no conteúdo, a realidade brasileira cada vez mais presente. Um gênero consagrado. O sucesso provocou consideráveis aumentos no número de capítulos até chegar, nos últimos anos, a uma média de 200 capítulos por novela bem sucedida. Nos dias de hoje, sente-se claramente um esgotamento do gênero. Por quê?

Nos novos tempos, em que os meios de comunicação, que têm na internet a maior revolução, a telenovela mantém, de forma conservadora, a mesma estrutura de 50 anos atrás. Um grande progresso tecnológico em contraponto a uma dramaturgia que não se renova nunca. De um lado, as imagens mais nítidas com o HD, a magia mais sofisticada com a computação gráfica, uma iluminação bastante requintada. Do outro, os textos com estrutura dramática cada vez mais pobre, com narrativa lenta, pouco criativa e com cada passo de uma história sempre se desdobrando repetidamente: a sucessão dos clichês e mesmices, a falta de arrojo nos temas, e até personagens que resumem para o telespectador, julgado um imbecil, o que está se passando na história.

Será convicção dos produtores das emissoras de televisão facilitar ao extremo a narrativa? Constatou-se uma grande queda no nível intelectual dos consumidores de telenovela? Ou será comodismo? Há aí uma contradição a se analisar. O público ativo, hoje, conectado à internet e aos games, habituou-se aos estímulos mais dinâmicos de percepção. Não é o mesmo público das telenovelas? Enfim, inadequação total aos novos tempos.

Escrever uma novela de 200 capítulos é uma empreitada insana! Os autores têm que trabalhar com uma equipe grande de colaboradores. A autoria genuína e o estilo de cada autor inevitavelmente ficam prejudicados: surgem o esquematismo, o fordismo da criação, que se pretende artística. É uma afronta aos bons atores. Quando vejo um grande nome do teatro ou do cinema brasileiro ser obrigado a dizer uma frase tola e óbvia, sinto enorme tristeza.

É hora de buscarmos um novo formato para a telenovela. Um formato que recupere a qualidade de outros tempos. Talvez seja bom observar e analisar as boas séries produzidas pela televisão americana, inglesa, francesa, alemã e mais recentemente a mexicana. A dramaturgia dessas séries tem a mesma dinâmica do cinema, com passagens de tempo ágeis, elipses adequadas, sincronicidade de ações, edição sempre ativa e inusitada, bons diálogos.

Como primeiro passo para recuperar o que perdemos em qualidade, vamos escrever novelas mais curtas, radicalmente curtas, não mais que 100 a 120 capítulos, metade do que se faz hoje. Nesse processo, o autor retoma sua individualidade, sua autoria. Isso trará de volta o estilo autoral. Da mesma forma, o diretor titular, mais capacitado, poderá dirigir mais cenas, com menos diretores auxiliares. O mercado vai crescer para autores: os bons colaboradores terão oportunidade de assinar seus trabalhos. E os melhores diretores auxiliares serão elevados a titulares. Atores e atrizes também serão beneficiados: crescer o mercado com mais novelas significa mais trabalho e dignidade, sem o esgotamento de carregar um personagem, por vezes tão frágil, durante 200 capítulos.

As emissoras farão novelas com menos personagens, consequentemente menos cenários, menos locações, menos figurinos. Não precisaremos de tantos núcleos paralelos, concentrando a narrativa na história central, como nas boas séries. Assim, com menos pessoal e produção reduzida, o ponto de equilíbrio financeiro será proporcional ao da novela de 200 capítulos, que se paga depois do capítulo 100. Com 120 capítulos, o ponto de equilíbrio financeiro de uma novela recua para 60 capítulos, ou em volta de. Muda-se a forma e o melhor conteúdo aflora. Será muito mais saudável para todos os profissionais e o público sentirá que o trabalho, aparentemente artesanal, não carrega o atual peso da insanidade.

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